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AFROSURTO

Esses dias pra trás, tentando entender como chegamos a essa atual sociedade do cansaço, onde pessoas negras que conseguiram alcançar a tão sonhada mobilidade social se deparam agora com novos problemas de ordem psíquica, me lembrei de um episódio muito interessante vivido no transporte público em São Paulo.

Era por volta das 15horas, o busão parou no ponto e um jovem negro muito cheiroso entrou e sentou no banco ao meu lado, ele estava conversando com alguém pelo celular e eu resolvi prestar atenção no diálogo. Já nos primeiros segundos de escuta ativa, percebi que não era uma prosa corriqueira, o jovem conversava com a sua psicóloga.

homem negro
Arte: Michael Oliver Love. 

- Não Greta, hoje eu não quero falar da minha família, nem da minha infância, ou dos gatilhos pra minha ansiedade. Eu pedi essa sessão extra porque precisava conversar sobre um troço, um troço que não tá rolando de falar com os parça, nem com a família. E se eu não falar com alguém vou acabar ficando doido.

- A vida é memo só isso que eu tô vivendo?  assim, é só acordar, tomar café da manhã, pegar o busão, chegar no trampo, trampar, sair correndo pra aula, estudar, voltar pra casa, tomar banho, dormir... e aí casar, ter filho, ficar velho, comprar uma casa na praia e morrer? É só isso memo?

- O que eu acho de errado nisso? não tem nada de errado, Greta, eu só me sinto sonâmbulo, um peão que roda roda roda e não sai do lugar.

- Não é só o Sistema, Greta.  Desde de que a gente começou a terapia há 10 anos, te falo que meus problemas são sim com o sistema, são sim com o racismo, mas não é só isso.

- Sabe o que eu sinto, na real? parece que ter estudado 15 horas por dia pra entrar na USP, a Universidade mais concorrida do país, não foi o suficiente, ainda sinto aquele vazio em mim, a sensação de que tô em uma competição e preciso vencer muitas etapas pra alcançar o ponto de chegada. A faculdade foi só uma dessas etapas. Ter um bom emprego é só outra etapa, assim como ter um relacionamento estável ou o passaporte carimbado são apenas etapas, nada disso me garante realização ou felicidade.  

Vejo que a felicidade parece estar apenas lá na frente, nessa tal linha de chegada. É somente chegando lá e subindo nesse pódio que a vida terá sentido. Quer dizer, passo mais da metade da minha vida correndo pra vencer essas etapas, e enquanto faço isso não vivo, não sinto a vida, perco o instante porque estou sonâmbulo querendo vencer etapas.

E, sabe o que é mais foda?  É que quando eu chegar lá e subir no tão sonhado pódio, e for finalmente possível sentir a vida com intensidade e saborear todas as suas cores, usufruir das suas belezas e realmente me sentir vivo, eu já vou estar velho demais e meu corpo não vai aguentar muita coisa.

- Greta, por favor me fala como pessoa agora, e não como minha terapeuta. Você que é uma mulher preta, considerada bem sucedida pela sociedade, com casa própria, carro do ano, mãe e esposa, você também tem essas nóia de ser a primeira pessoa da sua linhagem a finalmente realizar o sonho dos nossos mais velhos, e se sentir uma sonâmbula à revelia?

- Certo Lucas, vou acolher o seu pedido e vamos levar esse papo como amigos, tá bom? não vou nem te cobrar pela sessão. Sim, eu também tenho essas nóia, vou partilhar uma coisa pessoal com você que pode te oferecer algumas pistas pra sair do labirinto.

Quando eu estudava psicologia africana no Mestrado identifiquei que o nosso povo, as pessoas pretas que estavam ascendendo aqui no Brasil, e principalmente nas grandes capitais, carregavam um fardo muito grande, o fardo de “ter que dar certo”. E dar certo a qualquer custo, porque a família apostava todas as suas fichas nessa pessoa. É esse o seu caso, não é?

E o que eu tenho constatado com os estudos e com a prática, é que a cada dez pessoas que aceitam carregar esse pesado fardo, nove adoecem. Ansiedade, depressão, hipertensão, doença renal, diabetes. E pasme, o número de pessoas negras que morreram de doenças crônicas não transmissíveis como essas é cinco vezes maior que o número de pessoas negras que morrem assassinadas.

Não quero te botar medo, Lucas, só quero que perceba que não adianta a gente construir uma vida em conformidade com as expectativas da sociedade, se mantemos a nossa psiquê colonizada. Só os tolos acreditam que a causa da nossa miséria física está apenas no plano físico. As causas da miséria física também estão no plano psicológico, moral e espiritual. Precisamos descolonizar também o nosso psicológico, Lucas e você pode começar a fazer isso voltando a se olhar com mais respeito e carinho, porque em uma sociedade racista, o autocuidado também  é revolucionário.

Sheila Santos

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Coluna Preta

Sheila Santos é Mulher cis, preta, LGBTQIA+, paulistana, amante de samba e dos morros montanhosos de Minas Gerais. É Socióloga, Historiadora, Mestra em História e Doutoranda em História, e por tudo isso, acredita que contar histórias é uma forma de adiar o fim do mundo. Atua como Professora e como agitadora cultural em Diamantina (MG), é idealizadora do Fanzine “A voz (des)viada do Vale do Jequitinhonha” e do livro oriundo de sua dissertação de Mestrado, intitulado:"Quem não eco, nem sabe que já deixou de existir - A experiência contracolonialista do Quilombo Carrapatos da Tabatinga".

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