Coluna

O Teto de gastos e a pobreza

Quando penso em música brasileira surge em minha memória Tom Jobim. Vejo uma imagem sua, muito divulgada pela mídia, na qual ele com um charuto (imagino que cubano) ao lado de um piano conversa com um repórter. Sua aparência serena nos transmite uma calma que só é quebrada por uma de suas falas que ficou famosa “o Brasil não é para principiantes”. Definitivamente ele tem razão. Que falta faz Jobim.

Estamos no penúltimo ano do mandato de quem foi eleito em 2018. Naquela época a euforia era de que seria um governo que acabaria com tudo de errado que está aí, estaria surgindo uma nova política, um novo modelo de governar. Muitas incertezas permaneciam com relação às demandas que seriam ou não atendidas, são muitas e, conflituosas. A promessa era de que estaria nascendo naquele momento um novo país no qual a corrupção não existiria. Acordos secretos? Nunca mais. Promessas, promessas. Incertezas, sim incertezas. Os números do DataFolha, após 3 messes de governo, mostravam naquele momento essa hesitação, apenas 32% dos brasileiros acima dos 16 anos consideravam o governo de Jair Bolsonaro ótimo ou bom. Índice abaixo dos seus antecessores. Mas, era o começo. 

Em 2020 entramos no período pandêmico. Mais dúvidas com as ações que viriam a ser realizadas pelo governante do país. As pesquisas começam a mostrar cada vez mais queda da popularidade do governo em relação às respostas que o momento exigia. Mas, vem a tábua de salvação: o congresso aprova o Auxílio Emergencial. Contra sua vontade, mas aprova. O que acontece com a aceitação do governo nesse período? A pesquisa PoderData responde: Bolsonaro termina o ano de 2020 com a maior popularidade já adquirida até o momento. O Congresso protegeu a população mais pobre e salvou o governo da degola. 

Lembra da frase de Tom Jobim? O país não é para principiantes. Isso mesmo, nunca se esqueça disso. Em 2021 o governo troca os pés pelas mãos e tenta se auto implodir. Ele mesmo realiza os atos que o desaprova. O Auxílio Emergencial mostrou para Bolsonaro, mesmo ele não é tão idiota (citação grega) a ponto de não ver que dinheiro distribuído aos mais pobres representa aumento em sua aceitação política. O que este faz então? Primeiro se aproxima do Centrão. O denominado Centrão é formado por deputados de diversos partidos que estão na política em busca de defender seus interesses particulares. As estimativas é de que o grupo tem em sua formação entre 170 e 220 deputados. Entre eles Arthur Lira presidente da Câmara dos Deputados. 

O segundo passo seria criar um orçamento paralelo. Lembram-se do denominado mensalão?  Isso é muito pior. O acordo com o denominado Centrão passa por integrantes desse ter acesso a um orçamento para investir em suas bases eleitorais. Sim, desejam ser reeleitos e a troca de favores é como sabem fazer política. E o papo de política nova dito no início do mandato de Bolsonaro? Ruiu, acabou. Ficou na conversa mesmo. O Supremo Tribunal Federal considerou esse tipo de manobra do orçamento secreto inconstitucional, mas Lira é guerreiro não desiste nunca, afinal tem eleições no próximo ano. Qual será sua ação diante da decisão do Supremo? Recorrer a justiça para que o orçamento oculto seja mantido.

Terceiro passo. Já que as promessas de campanha não foram cumpridas, há uma inflação recorde no país, desemprego em alta e PIB não aceito pelo mercado. O que fazer para se reeleger? Usar os meios dados pelo Congresso e as armas do Centrão. Sim, ele sabe usar os meios em seu favor. Com isso o nome dos pobres que sempre foram desprezados pelo governo, não participaram e nem foram incluídos em nenhuma política pública surge como àqueles que devem ser atendidos em 2022. O compromisso inclui acabar com o teto de gastos aprovado em governo anterior e, fazer o programa de distribuição de renda do governo atual com previsão de orçamento somente para o ano eleitoral. 

Sim, em nome dos pobres o governo mantém o acordo com Centrão, tenta diminuir sua reprovação que segundo o PoderData, deste mês, está em 58% e diz que os menos afortunados é que saem ganhando, pois a quebra do teto é necessária para que o pacto sigiloso se mantenha. Jobim você estava certo: o Brasil não é para principiantes. Em tempo, essa fala de Jobim foi modernizada para “O Brasil não é para amadores”.        
 

Jurutan Alves

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Jurutan Alves contagense. Mestre em Ciências Sociais, Cientista Político, especialista em Marketing Político, fotógrafo e docente, autor do livro Os Reis: fotografias negras. Pesquisa sobre a qualidade da democracia e o sistema educacional no país.

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