Coluna

Combinamos de não morrer

O dia amanheceu amarelo-rosa no Morro da Pitanga, ao olhar pela janela Dona Ciça imaginou aquele amanhecer como uma fruta perfumada que aos poucos ia maturando, mudando de cor e espalhando fragrância doce para todos os lados. Olhar o céu por três minutos antes de preparar o café da manhã, era um ritual sagrado. A favela podia estar em guerra, o país em chamas, e ainda assim Dona Ciça não abria mão de se misturar às nuvens, “momento de ser Céu” ela dizia. 

Pedro, o filho mais velho, aguardava a contemplação-reza da mãe findar para lhe dar bom dia e ligar a TV, gostava de tomar seu café forte e amargo com uma fatia de bolo de fubá enquanto ouvia o noticiário. A reportagem daquele dia comentava os dados do Atlas da Violência divulgado pelo IPEA. 

Arte: @victorvieiraph @natimakeba @joyceksalvador

“Nos últimos dez anos negros teve 2,6 vezes mais riscos de serem assassinados no Brasil, o que significa dizer que no Brasil pessoas negras tem mais possibilidades de ser assassinada do que pessoas não negras. Cerca de 77% dos homicídios no país são de pessoas pretas ou pardas, ou seja, são 30 mortes  de pessoas negras por 100 mil habitantes.”

- Nossa mãe, toda vez que esse Atlas sai a minha espinha gela ao subir naquela moto, fico me perguntando se eu serei o próximo a entrar pras estatísticas. 

- Fio, cê já reparou uma coisa? Quando essa moça da TV fala de uma notícia que te alegra, como por exemplo, a história de uma cria nossa aqui do morro que passou no vestibular de Medicina, tu sai pro trabalho cheio de brilho nos olhos, cheio de sonhos, e quando ela conta notícia ruim, tu fica assim murchinho, preocupado. E essas emoções acabam por influenciar todo o seu dia, cê já reparou? Repara procê vê. 

- Será minha mãe? Eu sei que as notícias tem muita influência nas minhas emoções, afinal de contas, como não vibrar alto com minhas irmãs e irmãos que estão construindo Palmares de novo com as próprias unhas, e como não ficar puto da vida vendo que o Genocídio contra o nosso povo não cessa? 

- O que tu não percebe é que esse ódio que tu alimenta dentro de você mata tanto quanto a violência lá fora. Fio, presta a atenção numa coisa, a vida, a vida é uma experiência nutritiva. Tu não pode achar que é só esse bolo com café que vai te trazer força pra seguir o dia. 

- Acho que tô entendendo, o noticiário me alimenta de um jeito ruim, é isso? 

- Eu não entendo muita coisa desse mundo das letras, sabe fio, mas minha experiência limpando as casas de família, me ensinou que pra controlar um povo você deve primeiro controlar o que ele pensa sobre si mesmo, e como ele considera a sua história e a sua cultura. E se esse povo se sente o alvo, a vítima, o carrasco nem precisa de correntes ou paredes pra segurar ele, porque ele já se entregou. É por isso que eu acho que ocês que são jovens, precisam lutar com todas as armas pra repelir as narrativas mendicantes da nossa comunidade. 

- É minha mãe, essa faculdade que a senhora estudou chamada mundo te formou com honras. Agora eu vou subir nessa moto e costurar esse asfalto pra fazer as entregas do dia, mas sem cair na cilada que é me deixar ser definido pelo Outro ou por uma Estatística, a partir de hoje quero me alimentar com imagens que a gente considera positiva pra acreditar em um futuro onde eu e os nossos estejamos vivos e vitoriosos. 

- É fio, e cê não precisa parar de ver notícia e ficar alienado, só precisa vigiar pra não deixar ela te corromper e ir te matando aos pouquinhos, e por falar nisso, esses dias pra trás eu assisti uma moça muito sábia falando alguma coisa como “Eles combinaram de nos matar e a  gente combinamos de não morrer”, e esse não morrer pode ser tanta coisa né?

A lição que a sábia Dona Ciça nos traz é a de que tudo o que a gente ingere, pela boca ou pelos sentidos, produz realidades e se queremos uma realidade diferente daquela que os noticiários abordam, precisamos aprender a nos nutrir mais do Céu do que do mundo. A marca Makebas Brechó te possibilita muitos momentos de ser Céu, o que também significa enraizar e voltar a ser seu. 

Esta coluna tem o oferecimento do Makebas Brechó: @victorvieiraph; natimakeba; @joyceksalvador

Sheila Santos

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Coluna Preta

Sheila Santos é Mulher cis, preta, LGBTQIA+, paulistana, amante de samba e dos morros montanhosos de Minas Gerais. É Socióloga, Historiadora, Mestra em História e Doutoranda em História, e por tudo isso, acredita que contar histórias é uma forma de adiar o fim do mundo. Atua como Professora e como agitadora cultural em Diamantina (MG), é idealizadora do Fanzine “A voz (des)viada do Vale do Jequitinhonha” e do livro oriundo de sua dissertação de Mestrado, intitulado:"Quem não eco, nem sabe que já deixou de existir - A experiência contracolonialista do Quilombo Carrapatos da Tabatinga".

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