Coluna

CRESPA, SIM

art: @jeanesouzag3 Styling: @papelmache09 Modelo: @nina.fonnseca

Após mais de uma década de estudos na Universidade, eu tenho insistido que conhecimento é diferente de sabedoria. Conhecimento a gente adquire nos livros, nas aulas, nos debates com a turma, já a sabedoria é outros 500... não acontece assim, pelas vias institucionais, é um movimento circular, coletivo, que une corpo, mente e coração. E, cá entre nós, quase todas as pessoas sábias que eu encontrei nessa vida não estavam na Universidade, a maioria delas sequer tinham concluído o Ensino Fundamental. Dona Chica é uma delas, dona do Salão de Cabeleireiros da rua Veredinha, no Cabanas, periferia de Mariana.

Dona Chica é daquelas pessoas que parecem ter saído de uma fábula, com poder de nutrir e curar as mulheres que ali chegam. É doce, porém aguerrida, serena, porém afiada. Costuma dizer que seu Espaço e seu talento não servem à indústria que nos quer padronizadas, seu espaço é um dispositivo para que as mulheres reconheçam a sua própria força e assim possam contar elas próprias a sua história.

Da última vez em que estive no Salão de Dona Chica para hidratar as madeixas, presenciei um poderoso embate de ideias entre Dona Chica, sua filha e uma cliente.

A cliente estava vivendo um dos dias mais importantes da vida de uma mulher negra, o big chop, que acontece quando as mulheres que usam progressiva decidem retirar toda a química do cabelo através do corte, para que a partir dali o cabelo cresça de forma natural. 

- Mãe, a moça chora tanto, tem certeza que essa técnica vai ser boa pra ela? 

- é, fia, pode parecer esquisito, mas às vezes o sorriso esconde dores e as lágrimas trazem libertação.

- Como assim, mainha?

- A Kate é minha cliente desde os 12 anos, de lá pra cá, se passaram mais 12, nesse tempo, pelo menos duas vezes por mês eu aplico química em seus cabelos. Via ela saindo daqui com um sorriso amarelo, convicta de que aquele penteado lhe traria aceitação, mas eu e ela sabíamos que se essa aceitação não viesse de dentro, ia ser pura ilusão. Não é menina Kate? 

- É sim, Chiquinha. Eu lembro do olhar pesado que cê me lançava toda vez que finalizávamos o procedimento, e me perguntava: “e agora tu te sentes bonita, menina Kate?” Aquela pergunta me perturbava, eu nunca sabia o que responder, porque pra mim o cabelo escovado e chapado não era bem uma beleza, sabe? era um passaporte pra entrar em lugares e ser aceita pelas pessoas. 

- Uai mainha, e mesmo sabendo que, no fundo no fundo, a progressiva representava uma dor, a senhora fazia o serviço? 

- Sua mãe não tem culpa, fia, ela tentava alertar a mim e todas as outras meninas que a procuravam, mas a escolha é individual. Eu lembro que em nossos papos ela sempre arranjava um jeito de enaltecer a beleza de mulheres como Angela Davis, Lélia Gonzales, Elza Soares entre outras mulheres que não seriam tão poderosas se não fosse o imponente cabelo afro, e é com essa coroa crespa que eu sonho hoje em dia. 

- Exatamente, minhas meninas, eu hoje tenho muito orgulho de dizer que foi aqui, nesse Espaço, que a menina Kate teve consciência de que é negra, e que ser negra é maravilhoso. 

- É dona Chiquinha, tu foi mesmo uma mestra pra mim. E não é só pela aceitação do meu cabelo natural, não, viu, mas pelo reconhecimento que a Identidade cultural é um ingrediente necessário para a liberação da mente e da alma do povo preto. 

Na prática isso significa ter um olhar mais consciente em todos os aspectos da vida, eu, por exemplo, após o meu big chop vou fazer compras no Makebas Brechó, exercitar o black Money em um empreendimento afrocentrado que tem como objetivo ressaltar, celebrar e valorizar a beleza genuína que já existe em cada uma de nós. 

- Vocês são o orgulho da minha vida, quem dera esse mundão pudesse perceber que há muito mais de nós, disponível pra nós, só basta ter olhos pra ver. 

PS: Esta coluna tem o oferecimento do Makebas Brechó: @natimakeba, jeanesouzag3, @papelmache09, @nina.fonnseca

Sheila Santos

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Coluna Preta

Sheila Santos é Mulher cis, preta, LGBTQIA+, paulistana, amante de samba e dos morros montanhosos de Minas Gerais. É Socióloga, Historiadora, Mestra em História e Doutoranda em História, e por tudo isso, acredita que contar histórias é uma forma de adiar o fim do mundo. Atua como Professora e como agitadora cultural em Diamantina (MG), é idealizadora do Fanzine “A voz (des)viada do Vale do Jequitinhonha” e do livro oriundo de sua dissertação de Mestrado, intitulado:"Quem não eco, nem sabe que já deixou de existir - A experiência contracolonialista do Quilombo Carrapatos da Tabatinga".

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