Coluna

Honras e Glórias

Sabe quando você tá engajada na busca da sua paz interior e, meio que sem querer, bate os olhos em um post no Instagram que transborda na sua cara os números assombrosos destes tempos: Gasolina subiu. Carne subiu. Arroz subiu. Remédios subiram. Aluguel subiu. É quando você pensa: é, realmente esse lance de saúde mental não vai funcionar pra mim. E baixar a guarda acaba sendo a deixa para que a ansiedade, o medo, a insegurança e a raiva te paralisem. Muitos de nós, levariam essa tristeza para a terapia, o jeito moderno de lidar com a ausência de futuro. Nas famílias pretas, porém, a terapia tem outro formato, ao invés do divã, panelas e caldeirões, ao invés de um monólogo triste, a falazada descentralizada, porque uma vai completando os dizeres da outra, mas quando a matriarca fala, todos se calam e a atenção é toda dela.  

Enquanto Aysha amassava os tomates para curti-los no dendê e preparar Amiwó, o prato preferido da sua família, Vó Aziza notando aqueles olhos tristes, resolve lhe contar uma história.

mãe e filha cozinhando
Arte: @iamhamamat

- Pequena Aysha, o amiwó é a sua comida predileta desde que você era desse tamaninho, mas você sabe a história desse prato? 

- Ah sim, vóinha, eu busquei saber dessa história assim que cheguei no Benin. É que alguma coisa dentro de mim me falava que o meu prato predileto desde a infância tinha alguma coisa a ver com minhas origens, foi aí que eu descobri que o amiwó se chama djèwo no Benin e é uma das comidas mais populares de lá. 

- É uma grande história, e essa conexão da sua natureza com a sua cultura é bonito de ver, mas eu não tô falando dessa história.

- Não? 

- Eu tô querendo saber se já te contaram que quem trouxe a receita do amiwó para o Brasil foi ninguém mais, ninguém menos que Anaya Aja. 

- Uai, Vóinha, esse nome não me é estranho

- É claro que não, menina, Anaya Aja é a sua Tia Avó. Os parentes contam que a primeira vez que Anaya preparou esse prato foi no final do Século XIX, pra celebrar a fuga vitoriosa de Anulika da Fazenda onde eram escravizados, mas o cheiro hipnotizante daquele prato chamou a atenção do Sinhô, que obrigou a negrada a repeti-lo no dia seguinte para o almoço. Desse dia em diante, o amiwó se popularizou no Brasil. 

- Vóinha, eu tô passada! A senhora quer dizer que todas as pessoas no Brasil que podem se deliciar com o amiwó e viver as experiências únicas que esse prato proporciona, só o fazem porque um dia minha ancestral resolveu reproduzir nessas terras um dos pratos que ele comia no Continente-mãe? 

- É minha filha, mas não se sinta privilegiada, viu? todo negro tem algo assim em suas origens. Eles só não sabem. 

- Puxa vida! Mesmo sabendo que muitos dali nunca seriam livres meus ancestrais persistiram, resistiram e deixaram sua marca na história. Eu estou aqui por isso. O Amiwó é popular hoje no Brasil, por isso. 

- Nossa história tem partes sombrias, pequena Aysha, mas carrega também muita beleza nas entrelinhas. Eu espero que essa história possa te mostrar que somos um povo muito honrado. 

- Sim, Vóinha. Eu sempre achei muito problemático reduzir a gastronomia negra à feijoada, a alta gastronomia não é só coisa de gente branca. 

- Não é, nunca foi. Mas você precisa olhar pra essa história como uma ferramenta com capacidade de devolver a glória à nossa linhagem, porque o mundo não fará isso por nós. 

- Eu vou me reapropriar do que já me pertence, Vóinha. Conhecer esse episódio de tamanha grandeza, dentre os muitos que deve fazer parte da nossa história, acende um sol dentro de mim. E apesar da conjuntura, e apesar da política, e da dureza dos dias, eu sinto confiança pra ir aonde eu quiser, e ser o que eu quiser. 

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Sheila Santos

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Coluna Preta

Sheila Santos é Mulher cis, preta, LGBTQIA+, paulistana, amante de samba e dos morros montanhosos de Minas Gerais. É Socióloga, Historiadora, Mestra em História e Doutoranda em História, e por tudo isso, acredita que contar histórias é uma forma de adiar o fim do mundo. Atua como Professora e como agitadora cultural em Diamantina (MG), é idealizadora do Fanzine “A voz (des)viada do Vale do Jequitinhonha” e do livro oriundo de sua dissertação de Mestrado, intitulado:"Quem não eco, nem sabe que já deixou de existir - A experiência contracolonialista do Quilombo Carrapatos da Tabatinga".

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