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Livres para amar? 

Crédito: iStock

Com a pandemia e a ausência do bar, do terreiro e das Escolas de Samba, tive que encontrar outros espaços de invenção de saber. Passei a ir ao supermercado todos os dias, bem na hora em que sai a primeira fornada de pão, mais pra ouvir a prosa mansa que se desenrola nas filas, do que pelo pão. Em uma dessas prosas, mergulhei fundo na história de duas jovens, com no máximo 20 anos de idade cada uma. O enredo de suas vidas me lembrou os escritos de bell hooks¹ sobre o amor.

Essa autora discute em um de seus livros o impacto da escravidão no ato de amar. Vamos ao diálogo:

“tu é lacradora memo ein viada, 200 mil curtidas só no último post. Conta aí pra mim qual é o segredo de bombar da noite pro dia no Insta...” 

“Uai, é só tu falar o que o povo quer ouvir, tem segredo não.”

“Até parece que é tão fácil vai, suas análises do BK são as melhores. E eu nem sabia que tu era assim tão fã de rap.”

“Aí é que tá, Kakau. Eu nem sou tão fã de rap, eu só escuto as músicas, penso na minha vida, escrevo e pá, viraliza. É verdade, eu gosto sim de BK, do Djonga, do Thiago Elninõ... mas eu também curto Silva, Ana Vitória... e morro de medo de ser cancelada por isso.” 

“Pode crê, mana, desde criança tu tem esse lado romântica, sonhadora... Lembro que o seu sonho era se casar com um vestido rosa cheio de pérolas, e você falava isso pra todo mundo com a boca cheia, cê lembra?”

“Se lembro, hahaha. Eu desenhava esse vestido na capa de todos os meus cadernos da escola, e falava pra todo mundo: “imagine só, o meu corpo preto retinto dentro desse vestido rosa bufante, bordado com lantejoulas e cristais, parecendo uma princesa africana. Agora imagine meu esposo, um homem preto retinto dentro desse terno branco celestial.” 

“hahahaha, é verdade. Você ainda tem esses cadernos? Lembro que uma vez você até tomou suspensão porque tava desenhando o tal do vestido bem no meio da explicação de biologia.” 

“Posso te confessar uma coisa, Kakau? Eu ainda sonho com isso. Eu sonho todos os dias da minha vida com isso, Kakau. Sonho com um casamento de novela das nove, com uma família de comercial de margarina, em fazer piqueniques em um domingo de verão no parque da cidade com o maridão, as crias e os doguíneos... mas nos tempos em que vivemos, sonhar em ser feliz, em amar e ser amada, parece algo tão bobo, tão alienado... e mais, como é que eu posso pensar em ser mãe, em parir crianças pretas em um país onde um jovem preto é morto a cada vinte e três minutos?” 

“Ah mulher, então tu vai deixar de desfrutar do amor por causa do racismo? Eu tava vendo um dia desses uma youtuber falar que no tempo da escravidão os escravos precisavam conter e reprimir suas emoções pra ter mais chances de sobreviver. As mulheres, por exemplo, elas sabiam que naquela condição seria difícil experimentar ou manter uma relação de amor. Cê bota fé nisso? tanto lá atrás, como agora as questões políticas tão tentando interferir na capacidade do nosso povo em dar e receber amor, isso tá certo, não. 

E outra, quem foi que disse que não pode ouvir Ana Vitória e BK ao mesmo tempo? Oxi, é cada uma que essa internet inventa, viu. Tu é braba e é fofinha, e tá tudo bem. E agora que cê falou, confesso que quando eu vejo os pretos se amando, andando de mãos dadas, tendo filhos e netos, todos pretinhos, eu vejo muita resistência nisso, e lá no fundo eu tenho a certeza que o nosso maior ato político é o amor.”

¹ Gloria Jean Watkins, mais conhecida pelo pseudônimo bell hooks, é uma autora, professora, teórica feminista, artista e ativista social estadunidense. O nome "bell hooks" foi inspirado na sua bisavó materna, Bell Blair Hooks. A letra minúscula pretende dar enfoque ao conteúdo da sua escrita e não à sua pessoa. 

Sheila Santos

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Coluna Preta

Sheila Santos é Mulher cis, preta, LGBTQIA+, paulistana, amante de samba e dos morros montanhosos de Minas Gerais. É Socióloga, Historiadora, Mestra em História e Doutoranda em História, e por tudo isso, acredita que contar histórias é uma forma de adiar o fim do mundo. Atua como Professora e como agitadora cultural em Diamantina (MG), é idealizadora do Fanzine “A voz (des)viada do Vale do Jequitinhonha” e do livro oriundo de sua dissertação de Mestrado, intitulado:"Quem não eco, nem sabe que já deixou de existir - A experiência contracolonialista do Quilombo Carrapatos da Tabatinga".

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