Coluna

A TRANÇA

Rio - Recebi “A Trança” (Intrínseca, 208 págs.) da editora, ontem, e já li todo o livro.

Na verdade, li em dois dias. É um livro de capa dura, pequeno, bem escrito e gostoso de ler. A autora, a francesa Laetitia Colombani, é escritora, cineasta, roteirista e atriz.

Esse é seu livro de estréia. Fenômeno editorial na França, onde já vendeu mais de 1,4 milhões de exemplares e foi publicado em mais de 30 países.

a trança
Divulgação. 

Assim como a trança é a junção de três mechas, de três fios entrelaçados, nas páginas deste livro você vai se enredar nas histórias de três mulheres diferentes, unidas pela luta, resistência e resiliência de que são vítimas pela condição de ser mulher.

Os contextos, os motivos, as tradições, a sociedade e a segregação da mulher no mundo moderno, tudo são fatores que se misturam em cada história, como tranças.

Logo no início do livro, somos apresentados a Smita e a sua filha Lalita.

Elas são dalits. Intocáveis. Parte de um grupo a quem Gandhi chamava de ‘Os filhos de Deus’. Fora das castas, fora do sistema, fora de tudo. Uma espécie à parte, julgada impura demais para se misturar com o resto da sociedade.

Como Smita e Lalita, eles são milhares. Vivem fora das aldeias, da sociedade, na periferia, da humanidade. Tem as condições e ocupações mais indignas e nojentas, suportando humilhações diariamente e horrores nas mãos dos jatts.

Smita é catadora de fezes e o marido caçador de ratos nas terras dos jatts. Eles não recebem nada pelo trabalho que fazem. No máximo, roupas velhas e restos de comida. A principal alimentação da família são os ratos que o marido de Smita caça.

Ela quer salvar a filha da vida que leva e que, como destino, está destinada à Lalita. A menina não pode ir à escola ou ter acesso à educação. Os dalits nasceram para sofrer e não possuir nada. As mulheres dalits, ainda menos.

Nasceram para cumprir seu dharma, seu dever, sua sina. São a realidade da sociedade indiana, que vitimiza e violenta a mulher, cortando-lhe todos os direitos e oportunidades.

A segunda mulher é Giulia.

Giulia é uma adolescente siciliana que aos dezesseis anos largou a escola para trabalhar no ateliê do pai. O ateliê Lanfredi é um negócio de família, fundado em 1926 pelo bisavô de Giulia.

Mas, quando seu pai sofre um acidente, e ela assume o controle do negócio, percebe que o ateliê está à beira da falência. Ajudada por Kamaljit Singh, um indiano de religião sikh, Giulia tem um plano audacioso para salvar a empresa; mas, para reerguer o negócio ela precisa se reinventar e para isso tem que enfrentar a mãe e as irmãs que não admitem largar as tradições da família.

A terceira mulher é Sarah.

Sarah é uma renomada advogada de uma grande empresa do Canadá. Mãe solteira, ela é, além de alta executiva, working-girl, it girl e wonder woman. Sarah não se importa de carregar o fardo pesado de todos esses rótulos que as revistas femininas colam em mulheres bem sucedidas como ela.

Mas, quando vai ser promovida a sócia da Johnson & Lockwood, descobre que está gravemente doente.

A doença torna-se uma desculpa dos sócios para afastar Sarah do cargo que ela tanto lutou para conseguir. O que mais dói em Sarah é a segregação, discriminação e a escravatura imposta pelos sócios e colegas de trabalho.

Durante a trama, a autora tece um fio muito tênue, como um fio de cabelo, para unir as três histórias, não só pela importância do cabelo no enredo como pela disposição das três que recusam o destino que lhes está reservado e decidem lutar contra ele.

P.S.: o livro foi enviado pela editora.

Ediel Ribeiro (RJ)

328 Posts

Coluna do Ediel

Ediel Ribeiro é carioca. Jornalista, cartunista e escritor. Co-autor (junto com Sheila Ferreira) do romance "Sonhos são Azuis". É colunista dos jornais O Dia (RJ) e O Folha de Minas (MG). Autor da tira de humor ácido "Patty & Fatty" publicadas nos jornais "Expresso" (RJ) e "O Municipal" (RJ) e Editor dos jornais de humor "Cartoon" e "Hic!". O autor mora atualmente no Rio de Janeiro, entre um bar e outro.

Comentários