08,Apr
Coluna

O AMOR CURA

o amor cura
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Dizem que o amor cura. A doença que ele cura, no entanto, é gerada por ele mesmo. Por isso, talvez, se diga, também que a causa da doença, no caso na falta que um amor nos fez, é encontrar um novo amor. Então, o amor é capaz de causar o mal e trazer o bem, na mesma embalagem.

De fato, se colocarmos o amor ante todas as coisas más que acontecem na vida, elas não sobreviveriam, porque em muitos casos, a falta do amor é que traz as coisas más para nós. Amar ao próximo é uma forma de espalhar esse remédio por toda a humanidade.

Precisamos do amor como um vício, como uma droga saudável, algumas vezes tóxica, mas que todos procuram, tentando ingeri-la da melhor forma.

Ah! Essa ferida que não fecha, um remédio amargo que tomamos e não vemos, uma dor física que não sentimos, que dói, e não achamos a origem dela, onde está, como se instala, “é um fogo que arde”. Mas, que nós sentimos a ardência, o calor, como o vento que percebemos quando embalança as folhas das árvores.

Contra ele não há vacina, não há prevenção. Pode estar no ar, envolvendo a todos e ao mesmo tempo alguém achando que ele é único, somente um podendo percebê-lo. É uma doença que pode acometer a dois, a um somente um, mas, pode se alastrar e envolver três, terminar em tragédia, e pode envolver um grupo e se transformar em uma revolução.

O amor por vezes cura, por vezes mata, quando ele é sufocante, ou quando ele sufoca alguém até o extremo da resistência do outro em não querer fazer parte da doença. Alguns dizem que quem ama não mata, e se mata é porque a doença do amor se instala, e conseguir um outro amor é a cura.

O amor é uma doença, uma contaminação bem-vinda. Envolve dois, que se internam em quarentena, longe dos olhos, a ponto de se dizer que são doentes de amor, sedentos de uma paixão inexplicável. Uma bactéria, um vírus que se instala e ninguém quer saber a cura. Até que um resolva não mais ficar doente, porque uma doença maior, o ciúme, aparece e transforma aquele vale de desejos em um vale de lágrimas.

Bem-vindo seja o amor para curar os homens, as mulheres, dessa doença maior que é a solidão. O amor cura quando perdoa, quando abraça e protege.

Quantas vezes nos apaixonamos na vida e perdoamos, e o amor vai devagarzinho sumindo, como por um encanto, como a flor que encerra o seu ciclo de vida e se torna semente, bem pequenina, quase esquecida, esperando uma nova chuva, um novo olhar brilhante que nos encante, e vamos, novamente, tentar curar o amor perdido com um novo amor de esperança.

Nilson Lattari

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Crônicas e Contos

NILSON LATTARI é carioca e atualmente morando em Juiz de Fora (MG). Escritor e blogueiro no site www.nilsonlattari.com.br, vencedor duas vezes do Prêmio UFF de Literatura (2011 e 2014) e Prêmio Darcy Ribeiro (Ribeirão Preto 2014). Finalista em livro de contos no Prêmio SESC de Literatura 2013 e em romance no Prêmio Rio de Literatura 2016. Menções honrosas em crônicas, contos e poesias. Foi operador financeiro, mas lidar com números não é o mesmo que lidar com palavras. "Ambos levam ao infinito, porém, em veículos diferentes. As palavras, no entanto, são as únicas que podem se valer da imaginação para um universo inexato e sem explicação".

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