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Home Colunas

GLAUCO, o Picasso do cartum

Por Ediel Ribeiro
23 de agosto de 2019 - 08:03
em Colunas

Glauco Villas Boas (Arte: Nei Lima)

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Rio – Esbarrei com Glauco pela primeira vez em 1978, quando ele ganhou, pelo segundo ano consecutivo, o grande prêmio do Salão Internacional de Humor de Piracicaba (SP).

Outra vez, foi em 1991, junto com “Los Três Amigos”, na Bienal de Quadrinhos, na Fundição Progresso, na Lapa (RJ).

Em São Paulo, ele faturou, além do troféu, 15 mil cruzeiros. 

Feliz com a premiação, prometeu pagar bebida para todo mundo. Se cumpriu o prometido, não sei. Tive que voltar para o Rio de Janeiro, naquela mesma noite e perdi a festa.

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Glauco Villas Boas, nasceu em Jandaia do Sul (PR), em 12 de março de 1957. Mudou-se para Ribeirão Preto (SP), aos 19 anos. Publicou seus primeiros trabalhos em 1976, no jornal “Diário da Manhã”, dirigido pelo jornalista Hamilton Ribeiro.

Desde 1977, ano em que foi premiado pela primeira vez em Piracicaba – por um júri formado por Henfil, Jaguar, Millôr e Angeli – Glauco vinha publicando seu trabalho esporadicamente na “Folha de São Paulo”.

No jornal, Glauco criou, vários personagens, entre eles, O Casal Neuras, Dona Marta, Doy Jorge, Zé do Apocalipse e o Cacique Jaraguá.

Seu personagem mais famoso, Geraldão, foi criado em 1981. Sujeito comum, Geraldão é um “adolescente” de 30 anos, desempregado, alcóolatra compulsivo, solteirão, virgem e cheio de vícios. Mora com a mãe e namora uma boneca inflável, chamada Sônia Braga. Ansioso, tem seu ritmo frenético acentuado por múltiplos braços e pernas. Geralmente aparece pelado nas tiras.

Durante o Salão, Glauco conheceu Henfil e passou a morar, junto com Angeli, Laerte e Nilson, no apartamento da rua Itacolomi, no bairro de Higienópolis, em  São Paulo, apelidado de “bunker”.

A convivência no “bunker” durou pouco tempo. Glauco era muito louco e Henfil organizado e metódico e disciplinador. 

Glauco, nos fins de semana, voltava de Ribeirão Preto – onde ia visitar sua namorada, Ju – às 6h da manhã, e como sempre perdia perdia as chaves, batia na porta acordando todo mundo, inclusive Henfil, que gostava de dormir até às 10h da manhã.

Henfil mandou ele embora várias vezes. Mas ele não ia. Era sonso. Fingia que não era com ele. Henfil jogava umas indiretas; dizia que já estava na hora de ele ir embora mas ele nem ligava. Não estava nem aí. Angeli e Laerte contaram que Henfil chegou a espalhar pelo apartamento mapas indicando a saída. Mas Glauco só deixou o “bunker” quando quis, nove meses depois.

O trabalho do Glauco – como o do Angeli e do Laerte – tinha forte influência do traço do Henfil. Eles nunca negaram isso. Eram fãs do cartunista mineiro. Certa vez, Glauco contou que quando conheceu Henfil, pensou que estava falando com Deus.

A admiração era mútua: Henfil gostava do humor ácido, piadas rápidas, traço limpo e do jeito particular que ele unia inocência e malícia num mesmo cartum. Era fascinado por uma charge do Glauco em que o preso, acorrentado pelos braços, cutucava a bunda do carrasco.

Todo mundo era fã do Glauco. 

Nilson, outro cartunista mineiro que morava no “bunker”, gostava tanto do traço sintético, caligráfico e ao mesmo tempo “ultrassofisticado” do Glauco que o apelidou de o Picasso do cartum. 

Glauco era adepto do Santo Daime, uma manifestação religiosa surgida na região amazônica no século XX. O cartunista via na floresta mais que um refúgio de paz e sossego. Misturando misticismo, curandeirismo e ecologia, fundou no sítio onde morava, em Osasco, sua própria igreja: a “Céu de Maria”, um centro daimista que consistia em uma doutrina espiritualista que tinha no  autoconhecimento, na internalização e no uso sacramental de uma bebida enteógena, a ayahuasca, o meio para obter  sabedoria.

O cartunista foi morto, em 2010, junto com o filho Raoni, na sede da seita, por um  adepto da igreja que teria chegado ao local disposto a levar Glauco e sua mulher para a casa de sua mãe, em São Paulo, com o objetivo de afirmar à mulher que ele era Jesus Cristo.

Tags: Glauco Villas Boas
Ediel Ribeiro

Ediel Ribeiro

"Coluna do Ediel" Ediel Ribeiro é carioca. Jornalista, cartunista e escritor. Co-autor (junto com Sheila Ferreira) do romance "Sonhos são Azuis". É colunista dos jornais O Dia (RJ) e O Folha de Minas (MG). Autor da tira de humor ácido "Patty & Fatty" publicadas nos jornais "Expresso" (RJ) e "O Municipal" (RJ) e Editor dos jornais de humor "Cartoon" e "Hic!". O autor mora atualmente no Rio de Janeiro, entre um bar e outro.

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