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Home Colunas

OBRIGADO, MADRINHA!

Por Ediel Ribeiro
1 de maio de 2019 - 14:53
em Colunas

Divulgação

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Rio – Beth Carvalho com quem tomei muitas cervejas nas rodas de samba, no Cacique de Ramos, foi, mais uma vez, cantar no céu.

Bem antes de ir morar na Rua Uranos, ao lado do Cacique de Ramos, eu já frequentava as rodas de pagode que Bira, Ubirany, Sereno, Zeca Pagodinho, Sombrinha e outros bambas faziam embaixo da tamarineira.

Estava começando no jornalismo e sonhava entrevistar a grande Beth Carvalho, figura constante nas rodas de samba do Cacique de Ramos. Mas eu era muito tímido e ela não era só a madrinha do Grupo Fundo de Quintal; era a rainha do Cacique, respeitada e admirada por todos. Então, eu ficava só olhando.

Beth foi trazida para o bloco em 1977, pelo Alcir Portela, ex-jogador do Vasco, – vinda da Bossa Nova – já uma sambista consagrada, ficou encantada com aquele som novo do samba.

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Apaixonou-se pelo som do tantã, que já existia, mas era tocado de forma diferente pelo Sereno. Pelo repique de mão, que era um repique de baqueta normal e Ubirany tirou a pele debaixo, colocou uma madeira dentro e criou um novo instrumento; além do banjo com o braço menor e afinação de cavaquinho que Almir Guineto inventou e tocava magistralmente.

Apaixonada pelo som dos “meninos”, em 1978 ela apresentou o grupo ao Rildo Hora e com eles fez, pela RGE, o disco “Pé no Chão”, que foi um divisor de águas na sua carreira, por ter trazido esse novo som para o samba.

O disco estourou no Brasil inteiro com a música Vou Festejar, de Jorge Aragão, Dida e Neoci.

Beth sabia reconhecer um talento quando via um. Em 1983, já com a fama de “Madrinha do Samba”, um dia chegou ao Cacique um menino chamado Zeca. Uma figura magra, com o cavaquinho dentro de uma sacola de supermercado, chinelo de dedo, querendo cantar um samba, o pessoal nem queria ouvir direito. Porque na roda de samba tinha uma disciplina rígida, as pessoas eram muito rigorosas no Cacique. Não era qualquer um que podia chegar e tocar. Mas ela pressentiu que o menino era diferenciado. “Deixa o menino cantar”. Aí ele começou: “Não pense que meu coração é de papel, não brinque com meu interior, camarão. Camarão que dorme a onda leva hoje é dia da caça, amanhã do caçador”.

Impressionou tanto a madrinha que, na hora, Beth disse: “eu vou gravar esse samba, e eu quero você cantando comigo!” E o menino virou Zeca Pagodinho.

Vendo no menino uma jóia rara, ela queria que sua gravadora, a RCA, fizesse um disco com ele, mas eles não quiseram fazer. Então a RGE fez e o Zeca vendeu um milhão de cópias!

Em 1997, viu a música “Coisinha do Pai”, grande sucesso de seu repertório, ser tocada no espaço sideral, quando a engenheira brasileira da Nasa Jacqueline Lyra, programou para ‘acordar’ o robô em Marte.

Elizabeth Santos Leal de Carvalho nasceu no Rio, no bairro da Saúde, em 5 de maio de 1946. Aos 8 anos, junto com o violão que ela ganhou dos avós, apareceu o gosto pela música.

Seu pai era de esquerda, filiado ao PC, gostava do Prestes, do Brizola, do Getúlio Vargas. No golpe de 1964 foi dedurado e perdeu o emprego na Alfândega. Foi um período difícil na vida da cantora.

Politizada, junto com a militância no samba veio a militância política. Como o pai, era admiradora de Leonel Brizola e Fidel Castro. Filiada ao PDT. Apoiou Luiz Inácio Lula da Silva em todas suas campanhas presidenciais. Integrou o coro que entoou o jingle das Diretas, Já, em 1989. Também apoiava o MST.

Em 1979, Beth se casou com o jogador de futebol Edson de Souza Barbosa e, dois anos depois, deu à luz sua única filha, Luana Carvalho.

Mangueirense de coração, no carnaval de 2007, já com problemas na coluna pediu um carro alegórico para desfilar, mas no dia do desfile foi barrada por um diretor da Mangueira. Ficou 4 anos afastada da escola. Em 2011, depois de uma ausência de quatro anos, Beth voltou a prestigiar a escola do coração. Ela foi ao desfile de cadeira de rodas, devido a uma cirurgia recente, para homenagear Nelson Cavaquinho, seu amigo e compositor preferido.

No final dos anos 90, Eulália Figueiredo, jornalista e assessora de imprensa, me convidou para entrevistar Beth Carvalho, num restaurante, no Shopping Rio Sul, zona sul da cidade. Batemos um longo papo, bebemos e eu realizei meu sonho de menino ao entrevistar a grande Beth Carvalho.

Em mais de 50 anos de carreira e uma discografia de 34 discos e 5 DVDs lançados. A cantora já recebeu seis Prêmios Sharp, 17 Discos de Ouro, nove de Platina, dois DVDs de Platina, além de centenas de troféus e premiações.

Beth Carvalho morreu no Rio, nesta terça-feira (30), aos 72 anos.

Obrigado, madrinha!!!

*Ediel é jornalista e escritor

Ediel Ribeiro

Ediel Ribeiro

"Coluna do Ediel" Ediel Ribeiro é carioca. Jornalista, cartunista e escritor. Co-autor (junto com Sheila Ferreira) do romance "Sonhos são Azuis". É colunista dos jornais O Dia (RJ) e O Folha de Minas (MG). Autor da tira de humor ácido "Patty & Fatty" publicadas nos jornais "Expresso" (RJ) e "O Municipal" (RJ) e Editor dos jornais de humor "Cartoon" e "Hic!". O autor mora atualmente no Rio de Janeiro, entre um bar e outro.

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