Coluna

MEMÓRIAS E HISTÓRIAS

Juiz de Fora (MG) - É fato que nossas memórias são as histórias que guardamos. E as memórias de outros, quando nos contam, se tornam uma parte da nossa própria história. E as reproduzimos, perpetuando uma história de todos.

O que seria da história se não houvesse as memórias?

Se, por exemplo, nenhuma fotografia houvesse, nenhum registro de acontecimentos ficasse guardado em uma folha de papel e, nem mesmo, as histórias orais fossem preservadas? Os fatos vividos por todos seriam descartados e novas coisas estariam sempre recomeçando. Como se não houvesse uma mistura de gerações, mas que elas fossem estanques. Uma terminasse onde a outra, exatamente, começasse. 

Foto: Debby Hudson na Unsplash - 

Seria como se nascêssemos todos os dias.

Como exercício de ficção podemos imaginar isso. O mundo como que terminava, as coisas físicas, construídas, estivessem ali e uma nova geração começasse a usufruir disso, da parte física, excluídos os livros de história. Permanecendo os manuais de instrução e os livros iniciais para um novo ciclo.

Como seria nossa vida social, afetiva, como aprenderíamos a lidar com as coisas, baseando-se, tão somente, nos manuais de instrução? Um mero apertar de botões.

Como seria o ensino? Os professores estariam inertes nas folhas de papel.

Sim, o que mais perderíamos seria esse feeling, esse contato com o contraditório, com as opiniões. Não basta que usemos o conhecimento sem aquele que usou e testou e verificou alguns erros, encontrou atalhos, que não estão nos livros, mas nas memórias de cada um.

Com o advento da internet, aplicativos como Youtube e Tik tok são um manancial de conhecimentos que se espalham. Eles são as memórias modernas. Assim como as fotografias que esmaecem, se perdem no mundo digital por um erro fortuito, as informações desses aplicativos se tornaram muito interessantes. São manuais em construção e difundem pequenas atividades da vida humana que vão se espalhando, sendo verdadeiras ou não. A memória digital perpetua tudo, inclusive a mentira. A fotografia e o documento não mentem, a memória digital nem tanto, porque se manipula. É uma memória que formaria uma história manipulada?

O mais legal é ver que alguém do outro lado do mundo, fornecendo instruções em uma língua, completamente desconhecida, consegue, pela imagem, ensinar como fazer um pão, um nó diferente ou mesmo um artifício na construção civil. As informações são passadas de mãos em mãos ou de olhos em olhos e se eternizam. São como avós e avôs virtuais ensinando outros as suas artes e as suas descobertas.

Memórias são isso. São pequenas histórias que vão compor um grande mosaico de informação. É como o mágico que vê sua mágica sendo difundida. Seus segredos contados para todo mundo. E divertindo a todos.

Esse compartilhamento de descobertas vai eternizando uma grande memória da humanidade, ao simples toque de uma tecla.

Nilson Lattari

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Crônicas e Contos

NILSON LATTARI é carioca e atualmente morando em Juiz de Fora (MG). Escritor e blogueiro no site www.nilsonlattari.com.br, vencedor duas vezes do Prêmio UFF de Literatura (2011 e 2014) e Prêmio Darcy Ribeiro (Ribeirão Preto 2014). Finalista em livro de contos no Prêmio SESC de Literatura 2013 e em romance no Prêmio Rio de Literatura 2016. Menções honrosas em crônicas, contos e poesias. Foi operador financeiro, mas lidar com números não é o mesmo que lidar com palavras. "Ambos levam ao infinito, porém, em veículos diferentes. As palavras, no entanto, são as únicas que podem se valer da imaginação para um universo inexato e sem explicação".

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