Coluna

SOBRE PESSOAS, SOBRE LOBOS

Foto: Marek Szturc on Unsplash - ​​​

Os animais, para nós, humanos, representam uma virtude ou um defeito de nós mesmos: a astúcia da raposa, a falta de inteligência do burro, a força do cavalo; quando estas representações nada significam para eles.

Nós e essa tentativa inconcebível de humanizá-los.

Mas, observar a natureza é uma forma de também tentar entender a nossa própria.

De todas, a mais fascinante para mim, é a dos lobos. Um lobo, muitas vezes, é solitário, é só um lobo. Assentado em uma parte mais alta do terreno, placidamente, passa a observar tudo à volta. Seu olhar é como uma peça que não se mexe, possivelmente vê tudo e enxerga, farejando e percebendo o vento enviando as notícias, a eriçar levemente o pelo do corpo.

Vendo-o assim, sozinho, um humano pode ter a sensação de poder, e com a sua presença, suas armas, sua arrogância afastá-lo do seu ponto de observação, e o lobo, no seu silêncio, seguir o seu instinto e procurar um outro canto para continuar sua vigília.

Um lobo é somente um lobo no seu caminhar macio, na sua estratégia de não enfrentar o oponente, porque, simplesmente, a própria luta não vale a pena. O território que o humano imagina que conquistou é somente espaço, o território do lobo é o vazio, é o silêncio, é o seu esgueirar pelos atalhos, a sua volta paciente, é o contornar do outro. Que imensa bobagem imaginar que conquistamos dele, um simples lobo, o espaço em volta. Para o humano o lugar onde pisa é a sua propriedade, para o lobo é algo muito além disso. Qual é a noção de propriedade do lobo?

A arrogância do humano está na sua arma, na sua figura, a arrogância do lobo está no silêncio. O silêncio do lobo é assustador porque não se revela; nem o medo, nem a valentia, é apenas silêncio.

Expulso de um lugar, ele procura outro, e assim vai de ponto em ponto ficando no mesmo lugar. Furtivo, rouba os animais do humano, enquanto ele dorme, e enquanto o lobo dorme, quem saberá onde está?

O lobo é a estratégia do furtivo, é a espera pelo momento, é a paciência de esperar, e a espera é em silêncio. O silêncio é a resposta mais desconcertante que alguém pode dar ao outro. O olhar silencioso é a melhor forma de dizer que o medo está ausente. Mas, não o olhar baixo, desconcertado, mas o olhar calmo, tranquilo e desconcertante.

De repente, outros lobos, também em silêncio, passam a observar o humano. É uma muralha de contenção, apenas baseada na junção dos silêncios. O que nos causará mais medo? Um ataque de lobos, ou nunca poder prever o ataque deles?

Podemos aprender com os animais, em cada uma de suas características e artimanhas, a arma do silêncio, do não responder, pode significar muito mais do que a explosão física.

Respeitar o seu silêncio é respeitar a sua ignorância. No silêncio do outro pode estar o medo, a confiança ou a indiferença. E quando os silêncios em volta forem muitos, talvez o humano perceba que está sozinho, diante de uma matilha... de lobos.

Nilson Lattari

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Crônicas e Contos

NILSON LATTARI é carioca e atualmente morando em Juiz de Fora (MG). Escritor e blogueiro no site www.nilsonlattari.com.br, vencedor duas vezes do Prêmio UFF de Literatura (2011 e 2014) e Prêmio Darcy Ribeiro (Ribeirão Preto 2014). Finalista em livro de contos no Prêmio SESC de Literatura 2013 e em romance no Prêmio Rio de Literatura 2016. Menções honrosas em crônicas, contos e poesias. Foi operador financeiro, mas lidar com números não é o mesmo que lidar com palavras. "Ambos levam ao infinito, porém, em veículos diferentes. As palavras, no entanto, são as únicas que podem se valer da imaginação para um universo inexato e sem explicação".

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