Coluna

UM CAFÉ COM FUMAÇA

CAFÉ
Foto: Nathan Dumlao on Unsplash - 

Dia desses, eu caminhava pelo centro da cidade, pensando qualquer coisa sobre o trabalho, coisas da casa e me deu uma vontade muito grande de tomar um cafezinho. Café, por sinal, é um motivo para tudo, para fechar um negócio, para trocar uma ideia qualquer com um colega de trabalho, para convidar uma companhia feminina, um amigo de longa data, para quebrar o gelo: nada como quebrar o gelo do que um café bem quentinho, desses que fumegam na xícara.

Cafezinho também é aquele aroma que invade a sala depois de uma soneca à tarde, e o perfume vai como pegando a gente de jeito e arrastando. Aliás, não sei se vocês concordariam, mas, cheiro de café e cheiro de churrasco, cheiro de comida, muitas vezes é muito mais agradável do que o próprio alimento.

Vai daí que eu resolvi tomar o tal cafezinho. A ideia veio depois de avistar um bar, com um atendente meio à toa atrás do balcão.

O café foi servido num desses copos pequeninos de vidro, não de louça, ainda quentes de estarem na água, alçado até um pires, seguro por uma pinça, mais parecendo um copinho de cachaça. Mas, o que me deixou irritado foi aquela fumacinha que estava no meio do café, como uma névoa. Sabia desde criança que aquilo era café requentado. Era bem esperto e informado para reclamar com o atendente a falta do café fresco.

Ao mesmo tempo me veio a lembrança de tempos idos, tempos de criança em que à tardinha minha mãe sempre trazia um golezinho de café, naqueles copinhos de metal, geralmente esverdeados, como se fosse uma brincadeira que ela fazia.

Numa das vezes, eu reclamei que aquele café não era igual ao café da minha avó, uma italiana, sempre com um avental meio encardido, ávida em me agradar.

- Mas, o que o café da sua avó tem de diferente do meu?

- O seu não tem aquela fumacinha no meio do café.

- Mas, aquilo é porque o café da sua avó é requentado.

- E o que é um café requentado?

- É um café que não é feito na hora, não como esse aí, é um café que fica frio e depois é colocado novamente no fogo para esquentar. Então, aparece a tal fumacinha no meio do copo.

Vem daí a minha experiência em saber o que é um café requentado.

Fiquei remoendo no bar aquela fumacinha e me lembrando da minha infância, dos agrados da minha avó, e como eu gostava de tomar o tal café requentado. Esse foi um dos motivos por não ter reclamado com o atendente e aceitado tomar o café requentado que ele me serviu.

E fiquei lá, repassando a colherinha, e a fumaça dando voltas formando um verdadeiro túnel do tempo.

Nilson Lattari

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Crônicas e Contos

NILSON LATTARI é carioca e atualmente morando em Juiz de Fora (MG). Escritor e blogueiro no site www.nilsonlattari.com.br, vencedor duas vezes do Prêmio UFF de Literatura (2011 e 2014) e Prêmio Darcy Ribeiro (Ribeirão Preto 2014). Finalista em livro de contos no Prêmio SESC de Literatura 2013 e em romance no Prêmio Rio de Literatura 2016. Menções honrosas em crônicas, contos e poesias. Foi operador financeiro, mas lidar com números não é o mesmo que lidar com palavras. "Ambos levam ao infinito, porém, em veículos diferentes. As palavras, no entanto, são as únicas que podem se valer da imaginação para um universo inexato e sem explicação".

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