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ROBERTO MARINHO: UM JORNALISTA

“Um homem que não tem coragem não merece viver.” (Roberto Marinho)

Figura tão controversa quanto poderosa, Roberto Marinho transitou entre opostos e construiu um legado que gera admiradores e críticos até os dias de hoje. 

Figura ímpar, o proprietário do maior grupo de comunicação da América Latina, um dos empresários mais poderosos do país, que até o fim da vida distribuía cartões de visita em que se apresentava apenas como “jornalista”, mereceu diversas biografias, desde sua morte, em 6 de agosto de 2003, aos 98 anos.

A última, “Roberto Marinho: um jornalista e seu boneco imaginário”, escrita pelo jornalista Eugênio Bucci, para a coleção ‘Perfis Brasileiros’ (Editora Companhia das Letras - 330 págs), é definitiva e constrói um arguto panorama da vida de Roberto Marinho, desde o menino frágil - nunca passou de 1,64 metro - que era alvo dos colegas na escola, passando pelo adolescente esportista que praticava remo, jiu-jítsu, nadava e lutava boxe, o admirador e herdeiro do talento do pai, Irineu Marinho - que fez fortuna como dono de jornal - passando pelo primogênito de 26 anos alçado ao cargo de diretor de jornal, até o homem obcecado pelo poder.

Roberto Marinho
Divulgação - 

Roberto Marinho tinha a elegância e a sofisticação dos realmente cultos. Bebia pouco e colecionava amores. Era elegante nos gestos e na delicadeza com que tratava a todos, do contínuo da redação ao chefe do poder executivo do momento. 

As diversas facetas do magnata do ‘Grupo Globo’ - que o rival Assis Chateaubriand, o Chatô, dono dos Diários Associados, atacava utilizando expressões como "crioulo alugado", "cafuzo" ou “africano com trezentos anos de senzala” e que o ex-governador do Rio de Janeiro, Leonel Brizola dizia ser uma espécie de Stálin das comunicações - estão neste perfil biográfico, recheado de contexto político e de referências familiares.

“Roberto Marinho: um jornalista e seu boneco imaginário” mergulha na vida do pai de Roberto, Irineu Marinho, desde a criação do jornal “A Noite”, em 18 de julho de 1911, ao lançamento de “O Globo”, em 29 de julho de 1925, onde começa a história da criação do império jornalístico da família Marinho.

Num texto bastante equilibrado, fluido e construído em capítulos curtos, Bucci compõe um perfil do magnata da Globo e desnuda a personalidade complexa do garoto tímido, filho de uma família de classe média que acenderia socialmente nas primeiras décadas do século XX, até se firmar como o barão da mídia, mais poderoso do que muitos presidentes do Brasil.

Roberto Marinho era essencialmente um jornalista. Sentia-se pouco à vontade diante do fato de ter se tornado um empresário do ramo da comunicação; teve  medo de fracassar num mercado tão novo quanto a televisão, um veículo mais afeito à publicidade e à indústria do entretenimento do que ao jornalismo, sua grande paixão. 

Em “Roberto Marinho”, Bucci traça um perfil capaz de explicar a trajetória de sucesso e as diversas facetas do magnata do ‘Grupo Globo’; revela o político sagaz, capaz de dobrar parlamentares e subverter a Constituição em defesa de seu império; o amigo dos militares, cada vez mais próximo, cada vez mais íntimo, que logrou construir a maior rede de radiodifusão e televisão do Brasil. 

Foi esse o Roberto Marinho que conhecemos. É esse o Roberto Marinho que o livro mostra. 

Um jornalista.

Ediel Ribeiro (RJ)

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Coluna do Ediel

Ediel Ribeiro é carioca. Jornalista, cartunista e escritor. Co-autor (junto com Sheila Ferreira) do romance "Sonhos são Azuis". É colunista dos jornais O Dia (RJ) e O Folha de Minas (MG). Autor da tira de humor ácido "Patty & Fatty" publicadas nos jornais "Expresso" (RJ) e "O Municipal" (RJ) e Editor dos jornais de humor "Cartoon" e "Hic!". O autor mora atualmente no Rio de Janeiro, entre um bar e outro.

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