Coluna

HÁ UM AMOR EM CADA ESQUINA

Tomas Anton Escobar/Unsplash

As surpresas que a vida nos traz podem ser as esquinas que viramos sem perceber, alheios ao mundo, presos aos nossos pensamentos que nos levam para bem longe, nas estradas longas que nossa imaginação constrói. As surpresas são esquinas que o tempo determina, e quando viramos e encontramos um olhar, um sorriso, que não menos esperançoso, também contorna a esquina e nos encontra com o mesmo olhar, desabrocha em um sorriso que não esperamos.

Há um amor em cada esquina, quer seja um amor que se espera encontrar quer seja um amor que queira ser encontrado. Em cada esquina, pode haver um amor para ser comprado, ou um amor para ser vendido, guardado em um corpo desconhecido, aberto a prazeres múltiplos, ou apenas um momento de tristeza que queremos afogar. Pode estar no fundo de um copo que liquefaz nossas tristezas, ou pode estar em um beijo dado sem certeza. Pode apenas ser uma boa conversa, ou pode terminar em uma festa em uma mansão formosa, ou em um apartamento pequeno e mal cheiroso.

Nas esquinas os namorados marcam seus encontros e enfim podem se abraçar e trocar beijos. Há um amor em cada esquina, pronto para ser recebido, na troca carinhosa de cuidados, ao ceder um cobertor ao frio pesado, pode ser um prato quente que consola a fome que rondou todo o dia, de alguém que vaga pelas ruas, sem que tenha um lugar permanente.

Há uma esquina para cada amor que temos. Pode ser a reunião de apaixonados pela revolução que se aproxima, pode estar na paixão que leva a multidão a gritar por mais amor no mundo, como se o amor, desses que vivem em cada esquina, fosse o momento certo para aparecer e mostrar a sua cara, mesmo que venha sob uma chuva de pedras, ou recebido com borrachadas.

Há uma esquina dentro de cada um de nós, onde escondemos nosso amor de outro, para que não seja surpreendido. E quando temos a confiança, finalmente o trazemos da escuridão, e sob a luz da rua exibimos sem graça, o presente que guardamos.

Quantas esquinas há no mundo, e quanto amor deve estar nelas. As esquinas nos metem medo, nos trazem receios, e olhamos com cautela se podemos seguir por elas. Algumas esquinas terminam em becos escuros, outras terminam em uma rua larga e iluminada, ora tememos encontrar o delinquente ou, enfim, o amor apaixonado. Quem será que nas esquinas vai nos roubar o coração em transe?

Quando o amor não encontra palavras, são como as esquinas mal iluminadas, quando o amor se declara, ele apenas vira e vê, finalmente, a lua emoldurada. As esquinas nos trazem surpresas do andarilho que caminha com cuidado, as esquinas não são apenas meras viradas. E do ser que anda sem cuidado, sem olhar para os lados, apenas ignorando esquinas, não vemos o amor ao lado.

Nilson Lattari

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Crônicas e Contos

NILSON LATTARI é carioca e atualmente morando em Juiz de Fora (MG). Escritor e blogueiro no site www.nilsonlattari.com.br, vencedor duas vezes do Prêmio UFF de Literatura (2011 e 2014) e Prêmio Darcy Ribeiro (Ribeirão Preto 2014). Finalista em livro de contos no Prêmio SESC de Literatura 2013 e em romance no Prêmio Rio de Literatura 2016. Menções honrosas em crônicas, contos e poesias. Foi operador financeiro, mas lidar com números não é o mesmo que lidar com palavras. "Ambos levam ao infinito, porém, em veículos diferentes. As palavras, no entanto, são as únicas que podem se valer da imaginação para um universo inexato e sem explicação".

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