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LEMBRANÇAS

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Foto: Laura Fuhrman on Unsplash - 

Nomes são representações interessantes, principalmente quando eles nos lembram algo perdido nas lembranças da infância, um acontecimento na juventude e essas coisas.

Pipoca, por exemplo, tem uma ligação com a infância. Já adultos, quando sentimos aquele cheirinho peculiar se espalhando nas entradas dos cinemas, nos circos, em eventos na rua, ou mesmo quando voltamos para casa, nas paradas de ônibus, local estratégico para aquela fome que já vem chegando, percebemos quanto é prazeroso voltar a mastigar aquelas pelotas e a boca se enche daquele sabor de coisa eterna. Aquele pacotinho quentinho, com a consequente queda no chão de algumas delas, por conta do exagero do pipoqueiro.

Outro é o Conversível, um modelo de carro, lembra a rebeldia, um carro cheio de garotas, alegria no ir para a praia, está ligado a uma adolescência sem causa, mesmo que naqueles tempos “rebeldes”, não houvesse dinheiro suficiente para adquiri-lo. Mas, o carro conversível, capota aberta, pelo menos, era o sonho de cada um, quando jovem, e ao possuí-lo, por qualquer motivo feliz, mais adulto, é, sem dúvida, uma espécie de status, uma forma de voltar a ser jovem, mesmo que os cabelos brancos é que estejam ao vento. Mas, possuir um conversível é algo mágico, como um tapete voador, um diferencial.

No entanto, eu guardo um nome em especial. Um nome que me faz lembrar, não sei por que, daí da relação de magia, que não existe na língua portuguesa, algo doce, especial, principalmente porque está ligado à mulher.

É um nome francês – Demoiselle. Isso. Demoiselle, a senhorita em francês, até porque pela entonação, pelo requinte da língua francesa, uma cultura que me faz lembrar o romantismo, do erótico, demoiselle me traz algo doce na boca, alguma coisa ligada a uma guloseima, não sei se uma relação fonética com os nomes, acho que, com certeza, não há relação na língua francesa. Mas, demoiselle tem um sentido de afetação, como se uma demoiselle não fosse uma senhorita qualquer. E é um requinte se referir a uma linda menina:

- Mademoiselle, mademoiselle.

Fiquei surpreso que a origem do nome vem do grego, de Demóstenes, e significa a moça, nos casamentos representam a amiga mais íntima da noiva. Alguma coisa de libélula, e ninguém é mais libélula do que a própria juventude. E quem lidera o povo, que mais não seja, a liberdade de seios à mostra, que não fora uma demoiselle?

Por sinal, que um dos aparelhos pilotados por Santos Dumont foi assim chamado, mais no sentido da amante, talvez uma relação com a França, uma relação mais afetuosa com seu invento. Afinal, eram somente ele e ela no ar, voando pela Paris do início do século XX.

Eu fico cá por terra, admirando as meninas que passam com ares de demoiselle, sempre lindas, esbanjando a juventude que lhes são próprias.

Nilson Lattari

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Crônicas e Contos

NILSON LATTARI é carioca e atualmente morando em Juiz de Fora (MG). Escritor e blogueiro no site www.nilsonlattari.com.br, vencedor duas vezes do Prêmio UFF de Literatura (2011 e 2014) e Prêmio Darcy Ribeiro (Ribeirão Preto 2014). Finalista em livro de contos no Prêmio SESC de Literatura 2013 e em romance no Prêmio Rio de Literatura 2016. Menções honrosas em crônicas, contos e poesias. Foi operador financeiro, mas lidar com números não é o mesmo que lidar com palavras. "Ambos levam ao infinito, porém, em veículos diferentes. As palavras, no entanto, são as únicas que podem se valer da imaginação para um universo inexato e sem explicação".

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