Coluna

O BAR AMARELINHO

Rio de Janeiro - A notícia do fechamento do Bar Amarelinho, na Cinelândia, confesso, me pegou de surpresa.

Foi como se tivesse perdido um amigo. 

Vivi muitas histórias no Amarelinho. Uma delas, já contei aqui. Conto, outra vez, para quem não leu: um dia, fui homenageado com uma Moção de Honra na Câmara de Vereadores, alí ao lado do boteco. Depois da cerimônia, sentei ali para beber com o Tony Martinelli, jornalista veterano que trabalhava na extinta revista “Manchete”. Tomei um porre tão grande que perdi o diploma.

Felizmente, a notícia do fechamento do bar era mais uma dessas fake news que inundam as redes sociais. O Amarelinho só está dando um tempo; esperando a pandêmia passar.

Reprodução

O Amarelinho é um dos bares mais tradicionais do Rio de Janeiro. foi fundado em 1921, na Cinelândia, que na época, por abrigar teatros e cinemas era considerada “Broadway Brasileira”.

O escritor e poeta mineiro, Paulo Mendes Campos, numa crônica antológica “Por que bebemos tanto assim?”, escreveu: “Um bar perfeito precisa apresentar cinco qualidades fundamentais: boa circulação de ar, bom proprietário, bons garçons, bons fregueses e boa bebida.” Isso é quase impossível de acontecer, mas o Amarelinho, se aproximava disso.

A história do Rio de Janeiro se mistura com a boêmia. Muito dos fatos mais importantes da memória da Cidade Maravilhosa começaram em mesas de bares e cafés. O Amarelinho da Cinelândia sintetiza essa ideia.

O nome, que caracteriza tão bem o lugar, nem sempre foi “Amarelinho”. O bar se chamava “Café Rivera”, ganhou o epíteto “Amarelinho”, em decorrência da cor predominante das paredes externas do edifício. 

A fase áurea do lugar começou com o espanhol José Lorenzo Lemos, 85. Lorenzo veio para o Brasil em 1956, aos 18 anos, chegou ao Rio fugindo da Guerra Civil na Espanha e da ditadura de Franco. 

Começou como copeiro e garçom em bares da Praça Mauá. Morava num quarto do prédio da Avenida Rio Branco, 55. Fazendo economia, comprou o “Bar do Baiano”, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Em seguida, comprou o bar “Simpatia”, na Cinelândia, e, em 1970, tornou-se sócio do “Amarelinho”.

O bar, vizinho à Câmara dos Vereadores, já foi palco de grandes debates sobre o cenário artístico e político brasileiro. Figuras como Carlos Drummond de Andrade, Oscar Niemeyer, Mário de Andrade, Joel Silveira, Vinicius de Moraes discutiram nas mesas do bar, a Semana de Arte Moderna, a luta pela igualdade racial, o início da Era Vargas, os movimentos nacionalistas, a fundação do Partido Comunista, entre muitos outros assuntos. 

O charme do lugar e que você pode sentar numa das mesas espalhadas pela calçada, e tomar seu chope apreciando o movimento frenético das pessoas que circulam pelo centro, no dia-a-dia. 

O cardápio é rico e variado. Entre os pratos mais pedidos estão a feijoada, o cozido a picanha e o churrasco misto. Alguns petiscos também fazem um sucesso especial como o frango à passarinho e a codorna frita. 

Outra especialidade da casa e o sanduíche de filé mignon com queijo no pão francês. Tudo acompanhado de um dos melhores chopps do Rio.

Vale a pena visitar.

Ediel Ribeiro (RJ)

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Coluna do Ediel

Ediel Ribeiro é carioca. Jornalista, cartunista e escritor. Co-autor (junto com Sheila Ferreira) do romance "Sonhos são Azuis". É colunista dos jornais O Dia (RJ) e O Folha de Minas (MG). Autor da tira de humor ácido "Patty & Fatty" publicadas nos jornais "Expresso" (RJ) e "O Municipal" (RJ) e Editor dos jornais de humor "Cartoon" e "Hic!". O autor mora atualmente no Rio de Janeiro, entre um bar e outro.

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