Coluna

THE LAST WISH - Parte III

Um conto de E. Palmer

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Naquela noite, no meio de janeiro, o clima era um tanto frio e Joe já estava pensando em fechar, quando uma mulher que parecia ter entre trinta e cinco e quarenta anos, irrompeu no Joe’s Bar.

A mulher, embora bonita, tem um ar sombrio. O mesmo era verdade para suas roupas: um sobretudo preto aberto na frente, botas pretas, vestido preto colado ao corpo e chapéu, também preto, de abas largas. Parecia ter escapado de um velório.

Alex estudou atentamente o rosto pálido da mulher - ou o que se podia vislumbrar dele, por trás da máscara - e teve a súbita premonição de que havia alguma coisa estranha nela. A ideia não lhe agradou. A mulher estava nervosa. Talvez mais, talvez assustada.

Alex estava esgotado e muito cansado, tudo que queria era ler seu jornal e tomar sua bebida em paz. A mulher caminhou em sua direção. Ele não ficou feliz com a aproximação da estranha. Não gostava de ser interrompido quando lia o jornal. Aquela era uma noite só dele e do Buck, o cão deitado no pé da mesa.

Ele esperava que a mulher ocupasse a mesa atrás da dele. Mas a mulher o surpreendeu.

- Posso me sentar com você? - a mulher pediu, baixando a máscara que lhe cobria parte do rosto.

Alex imaginou se adiantaria ser indelicado com ela, mandando-a voltar para o maldito lugar de onde viera. Duvidava. Isso só lhe daria mais um motivo para estragar sua noite. Além disso, havia uma tempestade miserável caindo lá fora.

Enquanto seus olhos escorregavam pelo corpo desenhado a sua frente, Alex fez um gesto significativo, girando o pescoço, que era ao mesmo tempo um consentimento e uma curiosidade diante de tantas mesas vazias. Alex olhou de lado com impaciência para o cão, que se levantou balançando o rabo.

- Deita, Buck! - ralhou com o cão antes de oferecer uma bebida a mulher.

- Meu nome é Alex - disse, sem estender a mão para evitar o contato com a estranha. - Aceita uma bebida?

- Sim, claro, obrigada - disse. - Cosmopolitan, com limão, por favor.

- Cosmo?! - repetiu, Alex, chamando a bebida que lhe era conhecida pelo apelido.

- Conhece?

- Sim. Era o drink preferido...

- Humm!! Já sei - ela interrompeu, sorrindo. - Parece que temos aqui um cavalheiro fã de "Sex And City". É uma bebida que poucos homens conhecem. Sim, é a bebida preferida da Carrie Bradshaw, personagem da atriz Sarah Jessica Parker, no seriado americano.

- Eu ia dizer que era a bebida preferida da minha mulher. Gostava dela por ser mais doce e mais leve que o Dry Martini. A versão mais famosa da história diz que o drink surgiu lá nos anos 80, feito por uma bartender chamada Cheryl Cook, que tentava criar uma versão um pouco mais adocicada do Dry Martini. Vodka, licor de laranja, suco de cranberry, suco de limão e gelo, certo?

- Não esqueça da rodela de limão na taça - completou ela, sorrindo. - Foi sua mulher que lhe ensinou tudo isso? Onde ela está?

- Morreu, alguns meses atrás.

- Sinto muito!

- Obrigado. Qual o seu nome... senhorita “Sex and the City”?

Meu nome é Sarah, como a personagem. Sarah Colin.

Alex não disse nada. Estava pensando em sua mulher. Era estranho como as duas pareciam ter algo em comum, além do nome.

- Qual era o nome da sua mulher?

- Sarah. Sarah Caine.

- Sarah? A escritora? - repetiu a mulher, embora não aparentasse surpresa.

- Joe!! - Alex virou-se chamando o dono do bar. Mas Joe não ouviu, estava atrás do enorme balcão de madeira se preparando para fechar.

- Com licença. Eu mesmo vou buscar sua bebida. O velho Joe já está meio surdo e o bar não tem garçom a essa hora. A noite ele mesmo cuida de tudo.

Não demorou muito e Alex voltou com o drink vermelho nas mãos.

- Espero que goste.

- Obrigada! Alex, vim vê-lo porque preciso de um favor especial seu - disse a mulher.

- Que tipo de favor? Vá direto ao ponto.

- Tá bom - Sarah sorriu de modo irônico. - Eu quero que escreva o meu obituário. Sei que é esse o seu trabalho, que, por sinal, faz muito bem. Vou lhe pagar muito bem, também. Consegue fazer isso por mim? - disse levando a mão ao bolso do sobretudo pegando um maço de notas. Suas mãos estavam desajeitadas e trêmulas.

- Qual é o seu problema? - quis saber Alex, sentindo um pouco de pena da mulher. - Está doente? - repetiu.

- Não. Minha saúde está ótima - disse Sarah, por fim. - Nunca estive tão bem.

- Então, está pensando em suicidar-se? Eu sei como é isso. Já andei pensando nisso, também. A vida é uma droga. Mas, olhe, você ainda é jovem, bonita…

- Não é nada do que você está pensando, Alex. Eu estou bem. Sou bem casada, meu marido é maravilhoso; temos uma vida sexualmente ativa e feliz. Tenho uma ótima profissão...

- E por que então quer que eu escreva seu obituário? - atalhou.

- Não é hoje. Nem amanhã. Quero que escreva quando eu me for, um dia, sabe?

- E como eu vou ficar sabendo?

- Você saberá! Tome, fique com o dinheiro.

- Não, o dinheiro não é para mim. É para o jornal. E depois, aí tem muito mais que o valor do anúncio. A não ser que você queira um obituário de página dupla, colorido - disse, Alex, sorrindo.

- Não. Nada exagerado. Um obituário normal. Discreto, bem escrito, como você sabe fazer.

Alex largou o jornal e esfregou as mãos no rosto, demonstrando cansaço.

- O drink está ótimo! Experimente.

Ele bebeu com vontade, quase esvaziando a taça.

- Então? Temos um trato?

- Sim. Temos um trato. Mas guarde seu dinheiro. Acertaremos depois.

- A mulher colocou o dinheiro de volta no bolso, antes de levantar e se despedir.

- Preciso ir.

- Vou te ver novamente?

- Claro, ainda temos alguns “detalhes” para acertar, não é? - disse, antes de atravessar a porta e sumir engolida pela noite.

Na manhã seguinte, as dores no corpo tinham ido embora, mas Alex continuava indisposto. Sem ânimo.

Passou dois dias sem sair de casa. Nem ao Joe´s ele tinha vontade de ir. Passava o dia escrevendo e bebendo. De repente, alguém bateu na porta. Buck latiu, olhando para Alex, que prontamente calçou as pantufas e foi atender a porta. Era o Joe.

- O que você quer? Veio me entregar o Pulitzer?

- Não. Vim tirar seu rabo gordo dessa porra de cama. Vamos dar uma volta - disse o velho dando um tapa nas costas do amigo.

- Ei, seu filho da puta! - gritou Alex.

Alex odiava sair de casa quando estava de mau humor. Mas, pensando bem, era sempre melhor que ficar naquela merda de cama o dia todo.

Logo que o escritor abriu a porta, Buck correu para a rua. Até o cão não aguentava mais ficar preso em casa. A “volta” do Joe durou poucos minutos, logo estavam todos na porta do Joe´s.

Ainda era cedo, os amigos só chegavam por volta das 19h. Alex pegou uma cerveja e sentou-se em sua mesa para ler o jornal. Nem fazia 20 minutos que estava ali sentado quando abriram a porta. Era Sarah.

- Olá, Alex!

- Olá, Sarah! Tudo bem?

- Tá sumido - disse ela, puxando uma cadeira.

- É - disse ele. - Acho que tem razão. Não ando muito animado.

- Você precisa sair mais. Encontrar alguém. Namorar, viver a vida. Com certeza, Sarah não ia gostar de ver você assim. A morte de Sarah foi uma grande tragédia, mas isso não pode transformar sua vida em outra tragédia. O grande ensinamento da vida é que as tragédias ocorrem. Sempre vão ocorrer, e não há receita de como evitá-las ou como lidar racionalmente com o problema. A vida não tem realmente um objetivo ou sentido, além da busca diária da felicidade, independentemente de qualquer coisa. Buck parece ser sua única companhia, não é?

- Na verdade, é.

- Você não pensa em casar novamente?

- Acho que sim. Talvez — Alex disse, num tom miserável.

- A Sarah ficaria feliz.

Por um momento Sarah pareceu para Alex como Anna, a terapeuta freudiana, com óculos “fundo de garrafa” e cara de louca que ele conheceu logo depois da morte de Sarah. Ele concordava com as palavras de Sarah e Anna, e mesmo sabendo que elas estão certas, ele tenta recriar na solidão a felicidade e a normalidade, mas não consegue. O sentimento de impotência é mais forte. O apego à memória de sua esposa ainda lhe domina. É difícil encontrar um novo sentido para a vida, quando ela era o que dava sentido à vida.

- Vou pegar sua bebida - disse Alex.

Não demorou muito e ele voltou com o Cosmopolitan de Sarah e sua cerveja. Enquanto bebiam, os rapazes foram chegando.

- Alex, ninguém vai tomar o lugar da sua Sarah, mas a vida continua.

Sarah deu um beijo no rosto de Alex, ainda sorrindo e se despediu.

- Espere. Você ainda não acabou o seu drink!

- Beba você. Um brinde a Sarah! - disse, levantando a mão, fazendo um brinde no ar, e se afastou. Alex entornou o restante do drink e foi para casa.

No dia seguinte, Alex acordou cedo. Pegou o café, abriu o jornal, deu uma boa olhada nas manchetes, ligou o rádio e começou a trabalhar.

Recebia por e-mail o nome das pessoas que faleceram e sobre as quais tinha que escrever. Duas, três. Às vezes, quatro pessoas. Com a pandemia o trabalho de Alex dobrou.

Quando os nomes dos falecidos apareceram na tela do computador um nome, chamou sua atenção: Sarah Colin. Alex ficou paralisado. Seus olhos passeavam pela tela do computador na esperança que tivesse lido errado. Mas não. Era ela mesmo. Sarah, a moça do bar. Alex se virou, como se estivesse procurando consolo no Buck. Livrou-se do casaco, deixando-o cair ao lado do cão, e começou a escrever, freneticamente.

Aquela manhã, Alex escreveu o obituário mais lindo que já escrevera. Estava inspirado, as palavras pareciam cair do céu, como estrelas. As frases brotavam como flores. Como um poema de Emily Dickinson.

Aquela noite, Alex se arrastou até o Joe´s. Teria preferido ficar em casa. Mas precisava comentar com os amigos sobre a morte da mulher.

- O que foi, está pálido, viu algum fantasma? - perguntou, Joe, logo que Alex entrou no bar.

- A Sarah morreu.

- Que Sarah, Alex? A sua esposa?! Você está louco??

- Não. Sarah Colin, a mulher que esteve bebendo ontem comigo.

- Aqui?!

- Sim. Na minha mesa. Esteve aqui duas noites. Branca, vestida de preto...

- Alex, não tinha ninguém com você - disse Joe. - Vocês lembram de alguma mulher na mesa do Alex , ontem?

- Joe, eu te pedi dois Cosmopolitan para ela.

- Sim, eu lembro. Achei estranho você pedir a bebida da sua ex-mulher, depois de tanto tempo da morte dela. Achei que era saudade, que você queria recordar.

- Então…

- Alex, nós vimos você bebendo o drink - disse Rick.

Os amigos já estavam em volta da mesa e concordaram com o Rick.

- Você bebeu, Alex! Todos nós vimos - disse, Ruy.

- Eu bebi o resto que ela me deu quando já estava saindo. Eu não estou louco. Ela sentou na minha mesa, nós bebemos e ela me pediu que escrevesse o seu obituário. Eu estranhei pois ela parecia ótima. Mas escrevi essa manhã. Eu escrevi o obituário da Sarah Colin.

Um frio percorreu a espinha de Alex. Colin, ele agora lembrava, era o nome de solteira da Sarah.

O rosto dele ficou calmo, sereno, um leve sorriso brotou nele. Alex percebeu que tinha, finalmente, atendido o último desejo de sua mulher.

~ FIM ~

Ediel Ribeiro (RJ)

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Coluna do Ediel

Ediel Ribeiro é carioca. Jornalista, cartunista e escritor. Co-autor (junto com Sheila Ferreira) do romance "Sonhos são Azuis". É colunista dos jornais O Dia (RJ) e O Folha de Minas (MG). Autor da tira de humor ácido "Patty & Fatty" publicadas nos jornais "Expresso" (RJ) e "O Municipal" (RJ) e Editor dos jornais de humor "Cartoon" e "Hic!". O autor mora atualmente no Rio de Janeiro, entre um bar e outro.

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