03,Apr
Coluna

Desordem na ordem política

DIVULGAÇÃO

- Marineth, esses tempos de pandemia do COVID-19, a mais nova versão do coronavírus, que vem causando a morte de milhares de pessoas no mundo, desnuda a frágil estrutura do poder político democrático da República do Brasil. A desordem da ordem do poder político está, como nunca antes, escancarada. E provoca o desafio de análise profunda dos nossos cientistas políticos a definir o real perfil da ordem política à qual, nós, brasileiros, respondemos com direitos e deveres. Pois a situação se apresenta de maneira desordenada pela ação de representantes da população no setor Executivo, principalmente. A desordem institucional é uma geleia geral.

- Athaliba, como assim? Do que se trata? A ordem do progresso foi pro beleléu?

- Ora, Marineth, o governador Wilson Witzel provocou uma discussão política inusitada ao publicar decreto, dia 19/3, suspendendo, a partir de 21/3, vôos internacionais e dos estados com casos de pessoas infectadas com o coronavírus, incluindo a ponte-aérea RJ-SP. O Jair Messias, o mito pés de barro, logo reagiu e, com os rompantes costumeiros que lhe é peculiar, insinuou que o Rio de Janeiro parece um país dentro do Brasil. Disse isso destilando veneno.

- Athaliba, os dois retomaram o duelo? O mito pés de barro pisou na casca da bananinha?

- Marineth, é o que se vê. O Witzel criou uma situação de fato, politicamente, chamando o mito pés de barro à arena. No decreto que colocou a capital do RJ isolada, além da proibição dos vôos, também foi vetada circulação de transporte intermunicipal de passageiros que liga a Região Metropolitana, exceto aos trens e barcas, restritos para atendimento a serviços essenciais. Sobre o transporte interestadual, a circulação é vetada a estados com contaminação do coronavírus.

- Athaliba, o decreto da suspensão dos vôos funciona?

- Marineth, com o mito pés de barro esperneando na imprensa sobre o decreto do ex-juiz federal, a Anac - Agência Nacional de Aviação Civil - entrou em cena e divulgou que cabe à União o fechamento de aeroportos. Diz que “aeroportos são bens públicos da União Federal, atendendo a interesse de toda a nação, além das localidades imediatamente servidas”.

- Athaliba, qual foi a atitude do poder executivo federal?

- Marineth, à noite de 20/3, em resposta ao governador Witzel e a outros governadores que restringiram o transporte de mercadorias e pessoas em divisas interestaduais, o Messias editou Medida Provisória e um decreto regulamentando o assunto. Disse que “assinei medida provisória deixando claro ser de competência federal, observando critérios técnicos e responsáveis, a definição sobre fechamento, ou não, de aeroportos, rodovias e estradas federais”.

- Athaliba, o mito pés de barro disse que “depois da facada, não será uma gripezinha que vai me derrubar”, já tendo sido testado negativamente duas vezes para o coronavírus. Ele diz não temer os efeitos da doença, que infectou 13 pessoas de sua comitiva na viagem aos EUA.

- Pois é, Marineth. O COVID-19 pegou Robson Andrade, presidente da Confederação Nacional da Indústria, que teve contato com Fábio Wajngarten, secretário de Comunicação da Presidência, o primeiro da comitiva a ser diagnosticado com o coronavírus. O senador Nelson Trad (PSD-MS) e Nestor Forster, encarregado de negócios do Brasil nos Estados Unidos, estão contaminados, além de Samy Libermam, Sérgio Lima e Karina Kufa, a advogada do presidente.

- Athaliba, como se não bastasse às trapalhadas internas, o Eduardo Bolsonaro, deputado federal, abriu uma crise diplomática entre o Brasil e a China.

- Tô sabendo, Marineth. Ele postou a seguinte mensagem na rede social: “Quem assistiu Chernobyl vai entender o que ocorreu; substitua a usina nuclear pelo coronavírus e a ditadura soviética pela chinesa, +1 vez uma ditadura preferiu esconder algo grave a expor tendo desgaste, mas que salvaria inúmeras vidas. A culpa é da China e liberdade seria a solução”.

- Sim, Athaliba. O embaixador Yang Wanming respondeu de imediato ao ataque: “A parte chinesa repudia veementemente as palavras do deputado e exige que as retire imediatamente e peça desculpa ao povo chinês”.

- Marineth, o vice-presidente Hamilton Mourão disse ao jornal Folha de São Paulo que “o Eduardo Bolsonaro é um deputado. Se o sobrenome dele fosse Eduardo Bananinha não era problema nenhum. Ele não representa o governo”. Daí, nas redes sociais, o deputado passou a ser chamado pelo novo apelido de “Bananinha”. Bem, amiga, no mais, o que vier à frente é chuva no molhado. As posições estão colocadas no tabuleiro do jogo de xadrez e o resultado virá com o fim do COVID-19, às vésperas das eleições de outubro. Que as desordens na ordem e progresso sejam depuradas em favor da nossa tão vilipendiada pátria amada. Vamos ouvir “Vai passar”, de Chico Buarque, no link: https://www.youtube.com/watch?v=8DnwPjL-290. Um alento.

Lenin Novaes

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Crônicas do Athaliba

LENIN NOVAES jornalista e produtor cultural. É co-autor do livro Cantando para não enlouquecer, biografia da cantora Elza Soares, com José Louzeiro. Criou e promoveu o Concurso Nacional de Poesia para jornalistas, em homenagem ao poeta Carlos Drummond de Andrade. É um dos coordenadores do Festival de Choro do Rio, realizado pelo Museu da Imagem e do Som - MIS

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