20,Feb
Coluna

Os 100 anos do cantor RS

Roberto Silva cantou samba como poucos, mas o apoio à ditadura civil-militar na época do general Médici o deixou à margem do mercado fonográfico. Foto Divulgação
Roberto Silva cantou samba como poucos, mas o apoio à ditadura civil-militar na época do general Médici o deixou à margem do mercado fonográfico. (Foto: Divulgação)

- Marineth, ocê lembrou-me do centenário de nascimento da Elizeth Cardoso, a “Divina”, e quero retribuir, recordando que, também em 2020, é comemorado o centenário do cantor Roberto Silva, baluarte do samba. Alguns momentos de convivência com ele me vêm à lembrança, como em levá-lo para cantar na Feijoada do Império Serrano e na gravadora na qual fazia a assessoria de imprensa e o cantor integrava o cast de artistas. Roberto Silva foi cultuado por João Gilberto, o criador do gênero musical bossa-nova, e admirado, entre outros artistas, por Caetano Veloso.

- Athaliba, não pretendendo ser taxada de saudosista, no atual contexto da música popular impera, predomina, prospera a mediocridade, sem analogia àquela época do Roberto Silva. Ciro Monteiro o apelidou de “Mistura Fina”, marca de cigarro, devido à magreza e a maneira constante de vestir terno branco. Mas, como foi o show dele na escola de samba Império Serrano?

- Marineth, o cantor Jorginho do Império, filho do saudoso Mano Décio da Viola, me pediu para ajudar a Império Serrano, nas comemorações dos 60 anos de fundação da agremiação. Fiz uma publicação e auxiliei na produção das apresentações musicais. Ele me falou da satisfação de ter Roberto Silva como atração de um dos eventos da Feijoada Imperial, pois há muitos anos não via o cantor, padrinho de batismo de um dos irmãos dele.

- Athaliba, como ocê encontrou o Roberto Silva?

- Marineth, o cantor morava nas vizinhanças do Conjunto dos Músicos e o encontrava vez por outra. Ele aceitou o convite e realizou show memorável, entusiasmando a plateia na quadra de ensaios da escola de samba com cerca de três mil pessoas, em Madureira, no Rio de Janeiro..

- Maravilha, Athaliba.

- Sim, Marineth. Roberto Silva cantou músicas que fizeram sucesso e estão na memória do público, como “Mandei fazer um patuá”, “Emilia”, “Agora e cinza”, “Falsa baiana”, “Juracy”, “Aos pés da cruz”, “Se acaso você chegasse”, “Cabelos brancos” e “Escurinho”, entre outras. Também no repertório “Trouxa” e “Não posso mais”, de autoria do cantor com Geraldo Barbosa e Miriam Nascimento. No final, Jorginho do Império e o irmão afilhado do Roberto Silva relembraram com ele bons momentos em encontros com Mano Décio da Viola.

- Athaliba, o curioso, como observa com propriedade o produtor musical e cineasta Adonis Karan, realizador de festivais que revelaram artistas hoje consagrados, é que a boa música não se perde no tempo, ao contrário da maioria de músicas produzidas nos dias atuais que vão para o esgoto de tão “pobre, pobre de marré de sí”.

- Marineth, o Roberto Silva, considerado um dos grandes cantores, nascido 8 de abril/1930, no Morro do Cantagalo, em Copacabana, faleceu 9 de setembro/2012, aos 92 anos de idade. Era filho do chapeleiro italiano Gilisberto Napoleão e de Belarmina Adolfo. Provavelmente, ele caiu no “esquecimento do mercado musical” a partir do início da década de 1970, ao lançar “Protesto ao protesto”, também título de uma das músicas, em “apoio irrestrito ao sanguinário general Emílio Garrastazu Médici”, como observou um jornalista. O general assumiu a Presidência da República sem ser eleito, dia 30 de outubro de 1969, dentro do período da ditadura civil-militar (1964-1985). A música diz: “Hoje em dia/falam tanto de protesto/lanço aqui meu manifesto/já é tempo de parar/vamos ajudar ao presidente/a enfrentar firme o batente/para o Brasil melhorar”.

- Athaliba, esse trem é doido. É provável que o cantor tenha “entrado de gaiato no navio”, como tantos outros, “camuflados no exército de conservadores”. Bem ao contrário da atriz Regina Duarte, por exemplo, que se manifestou temerosa com a eleição do Lula e, recentemente, apoiou a candidatura do mito pés de barro à Presidência da República. Será que o convite a ela para ser Secretária Especial da Cultura, agregada ao Ministério do Turismo, com a extinção do Ministério da Cultura, é pagamento de dívida de gratidão? De toda forma, boa sorte à atriz na empreitada.

- Marineth, vá saber! O cantor não era organizado politicamente. Não tinha vida orgânica política partidária. Como ocê disse, ele “entrou de gaiato no navio” que navegou em águas turvas no falso milagre brasileiro apregoado pelos militares e que levou o Brasil ao obscurantismo da violência, da tortura e de assassinatos de opositores. O posicionamento político no meio artístico, como, em geral, em boa parcela da população brasileira, ainda é anfibológico, nesse permanente estado insustentável de democracia. Vamos ouvir o baluarte do samba Roberto Silva junto com Caetano Veloso na música “Juraci”:

Lenin Novaes

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Crônicas do Athaliba

LENIN NOVAES jornalista e produtor cultural. É co-autor do livro Cantando para não enlouquecer, biografia da cantora Elza Soares, com José Louzeiro. Criou e promoveu o Concurso Nacional de Poesia para jornalistas, em homenagem ao poeta Carlos Drummond de Andrade. É um dos coordenadores do Festival de Choro do Rio, realizado pelo Museu da Imagem e do Som - MIS

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