21,Nov
Coluna

‘Balas assassinas’ chacinam pessoas humildes em favela

velorio da menin agatha, atingida por bala perdida
Bala assassina da PM matou a menina Ágatha pelas costas (Foto: Reprodução/Internet)

- Sabe, Athaliba, erroneamente o povo brasileiro vem rotulando de “bala perdida” o projétil de revólver, escopeta, metralhadora, fuzil, pistola e outros tipo de armas de fogo que tem matado pessoas inocentes, nessa batalha urbana entre PMs, narcotraficantes e milicianos. Na verdade, o significado verdadeiro, apropriado, real do tipo de caso é “bala assassina”. As mortes de pessoas por “bala assassina” sequer figuravam em estatística oficial, há pouco tempo. Não devemos dizer que o tiro de fuzil disparado por um soldado da PM que matou a menina Ágatha Vitória Félix, de 8 anos, tenha sido “bala perdida”. Foi, literalmente, “bala assassina”, como, aliás, já se contabiliza mais de uma dezena de casos em que crianças foram chacinadas pela PM no Rio de Janeiro.

- Tem razão, Marineth. O governador do RJ, ex-juiz Wilson Witzel, implementa a política do abate. Releia https://www.ofolhademinas.com.br/materia/31927/coluna/rio-de-janeiro-sob-a-lama.

- É isso aí, Athaliba. O Witzel, taxado de covarde por um dos adversários por ter fugido do narcotráfico no Espírito Santos, na campanha eleitoral, ano passado, é conhecido pelo argumento de que “o melhor delinquente é aquele que a polícia entrega morto” e que fez o gesto macabro de que “é melhor dar um tiro na cabecinha”.

- Ora, Marineth, logo ao ser eleito, ele anunciava que atiradores de elite da PM atirariam na cabecinha de criminosos. O fato é que as invasões da PM de forma violenta nos morros e favelas são mais frequentes e resultam em mortes de pessoas inocentes, discriminadas economicamente por este sistema dominado pela elite burguesa retrógrada. Isso é abominável!

- Sim, Athaliba. Witzel mostra satisfação sádica quando as forças de segurança do estado violentam moradores de comunidades pobres e desassistidas. Ele vibrou, como se estivesse em transe de prazer, ao descer de helicóptero na Ponte Rio-Niterói, quando o PM atirador de elite assassinou aquele homem com distúrbio mental que roubou um ônibus.

- Marineth, em maio, o ex-juiz Witzel sobrevoava a cidade de Angra dos Reis num helicóptero e, irresponsavelmente, permitiu que PMs dessem rajadas de tiros de metralhadora na tenda de religiosos reunidos numa trilha do Monte do Campo Belo. Por um triz não ocorreu uma tragédia.

- Athaliba, sob a chancela do governador, policiais mataram 1.249 pessoas de janeiro até o início de setembro. A média é cinco mortes por dia, conforme dados do Instituto de Segurança Pública, autarquia vinculada à administração estadual. Cabe registrar que os dados não consideram as execuções cometidas por agentes públicos que agem na sombra ou por milícias, integradas de forma majoritária por policiais e bombeiros da ativa, da reserva e agentes públicos expulsos.

- Marineth, essa rotina de tragédia que deixa ensanguentado e sob a lama da corrupção o Rio de Janeiro está no vídeo no qual o avô materno da menina Ágatha, Airton Félix, questiona: ”o PM atirou na mãe dele, o PM atirou na filha dele, não, ele atirou na minha netinha pelas costas”.

- Athaliba, nas manifestações em repúdio ao assassinato da garotinha Ágatha ecoavam os gritos de “basta do sangue do povo negro derramado na favela”. Vizinhos dos familiares de Airton repetiam que “ela estudava inglês, fazia aulas de balé, era muito estudiosa e filha de trabalhador”. Na casa de Ágatha, as pessoas se refugiavam no banheiro sempre que a PM promovia tiroteio na favela. Essa é a realidade constante nas favelas e morros da ex-Cidade Maravilhosa.

- Matrineth, não dá mais para viver com medo e ameaça de morte casual por “bala assassina” da PM. O avô de Ágatha disse, após o enterro, no cemitério de Inhaúma, que “nossa luta só está começando”. É preciso mudar o curso dessa política de abate do governador Witzel. À família da menina Ágatha e de tantas outras dezenas de famílias que tiveram pessoas mortas em supostos confrontos entre PMs, narcotraficantes e milicianos, nossa solidariedade. No sofrimento e dor do povo pelo assassinato da Ágatha com tiro de fuzil dedico o soneto “Nó que não desata”:

“A noite principiava sob um céu acinzentado,
Quase fim do inverno, véspera da primavera.
Pelos becos e vielas, no terreno acidentado,
Formigueiro humano subia e descia a favela.

Território de desigualdades e direito violado,
Gera pacto de solidariedade o que assevera.
Na rotina da violência sufoca o grito calado,
A surda agonia abrupta que não dissolvera.

E, de súbito, nuvens se dissipam com o eco
Do tiro de fuzil que mata a garotinha Ágatha,
Disparado por PM transfigurado em boneco.

Comoção geral na cidade o que a dor retrata,
No dia a dia de mortes banais que não breco,
Num sistema fascista em nó que não desata”. 

Lenin Novaes

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Crônicas do Athaliba

LENIN NOVAES jornalista e produtor cultural. É co-autor do livro Cantando para não enlouquecer, biografia da cantora Elza Soares, com José Louzeiro. Criou e promoveu o Concurso Nacional de Poesia para jornalistas, em homenagem ao poeta Carlos Drummond de Andrade. É um dos coordenadores do Festival de Choro do Rio, realizado pelo Museu da Imagem e do Som - MIS

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