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Home Colunas

ENTREVISTA COM O CARTUNISTA OTÉLO CAÇADOR – PARTE III

Por Ediel Ribeiro
26 de julho de 2019 - 11:33
em Colunas

Otélo Caçador (Arte: Chico Caruso)

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Rio – Na década de 90, eu editava o “Cartoon”, um jornal de humor com “os órfãos do Pasquim”, uma galera, que, com o fim do semanário carioca, ficou sem ter onde publicar. Junto com os cartunistas Jaguar (Pasquim), Ykenga (O Povo), Ferreth (O Dia) e Leonardo (Extra), fui entrevistar Otélo Caçador. 

Otélo – para quem não sabe – foi um cartunista que fez durante 33 anos uma página de humor – Penalty do Otélo – no jornal “O Globo”.

Otélo nos recebeu no bar Degrau, no Leblon, onde, entre um gole e outro, falou durante cinco horas sobre o Leblon, música, boemia, mulheres, amigos, humor e, claro, futebol. (Ediel Ribeiro)

Otélo – Ele tinha uma frase que ficou famosa: “A melhor bebida do mundo é o uísque. Depois, é o uísque falsificado.”

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Ediel – Existia, na época, alguma diferença entre a boemia do Leblon e a boemia de Ipanema?

Otélo – (didático) Não. A boemia começou no centro, na Lapa. Depois veio pra zona sul e se espalhou pelos bares: teve o Bon Marché, teve o Zepellin, o Jangadeiro… Todos tiveram sua época. Tinha até uma piada do Isac Zuckman, que foi secretário do Ary Barroso. Ele dizia: Aquele bar que tem nome de índio, o Xavantes. Não era Xavante, era Cervantes (risos).

Ykenga – Dizem que o Ary Barroso, aonde chegava gostava de ser o centro das atenções.

Otélo – O Ary Barroso era o cara mais narcisista que já houve. Se chegasse a um bar e não se sentisse homenageado, ia pro telefone e berrava pra todo mundo ouvir: (imitando a voz do Ary Barroso) “Alô, aqui é o Ary Barroso, autor de Aquarela do Brasil. Ontem, irradiei o FLA_FLU”; “Tenho mais de 300 músicas gravadas…”

Ykenga – (rindo) Hoje quem faz isso é o Ziraldo.

Otélo – (gritando na direção do gravador) Olha, é você que tá dizendo isto. Eu não disse nada (risos).

Ediel – Você ouvia muito rádio?

Otélo – Muito. Naquele tempo só havia o rádio. Eu tinha muitos amigos no rádio. Não havia a televisão. Não como hoje. Os maiores artistas surgiram no rádio; o futebol fazia muito sucesso no rádio. O rádio era basicamente isso: música e futebol.

Ediel – É verdade que foi você quem deu nome a esse bar?

Otélo – Foi. Eu marcava encontro com o Lúcio Rangel e dizia: “Lá no Degrau. Aquele bar que tem um degrau.” Porque tinha um degrau que todo mundo caía, ou na entrada ou na saída. Geralmente, na saída (risos).

Ediel – Numa entrevista que eu fiz com o cantor Elson do Forrogode, ele disse que comprou uma casa em Pedra de Guaratiba e, no dia seguinte chamou o pedreiro e falou: “tira essa merda daí que casa de bêbado não pode ter degrau” (risos). Lá, ele tem três banheiros: um pra mijar, um pra cagar e outro pra vomitar (risos).

Otélo – O Leblon é engraçado. Tem Luvaria Gomes, que não vende luvas, vende pratos. Tem o Café e Bar Bilhares, que nunca teve bilhar (risos).

Jaguar – E tem o Bar Memória que ninguém se lembra dele (risos).

Otélo – Tem o Bar Raquete, um pé-sujo. Nunca entrou um tenista (risos).

Ediel – É porque o dono deve dar raquetada em quem não paga a conta (risos).

Ferreth – Qual era a bebida preferida da turma?

Otélo – Uísque. O uísque foi trazido pelo Lúcio Rangel. Depois vieram o Vinícius de Moraes e o Paulo Mendes Campos.

Ediel – Você se reunia no Veloso com grandes nomes da MPB, mas, ironicamente, ali não se podiam tocar instrumentos musicais. Por que então vocês freqüentavam o bar?

Otélo – Porque era perto. Luis Bonfá morava em frente; Baden Powel morava num hotel ali perto; Tom Jobim, também. O Tom, por sinal, foi proibido de tocar violão aqui no Degrau. Um dia ele chegou e foi mostrar pra gente uma música nova que tinha feito. Começou tocar, aí o português chegou e disse: (imitando o português) “Ó pá, aqui não se pode “tucar” violão” (risos).

Leonardo – Como é que você fazia pra fazer uma página de humor depois da boemia?

Otélo – Eu adiantava a metade e completava depois do jogo. Às vezes, fazia duas charges, uma contra e outra a favor. Aí dava empate e eu ficava desesperado (riso).

Ediel – Tem uma frase que atribuem a você: “Humorista tem que escolher: ou ele é humorista ou é paulista. As duas coisas, não dá.”

Otélo – É da época que eu gozava os colegas paulistas. O humor paulista é outro tipo de humor.

Ediel – Foi por isso que você falou que o Faustão não faria sucesso aqui no Rio?

Otélo – Foi uma surpresa pra mim. Eu achei que ele não faria sucesso por aqui. Também, é por causa dos prêmios. Você vê o Sílvio Santos. O Sílvio não tem uma televisão; ele tem um casino (risos).

Ykenga – Qual era o papel do Jô Soares neste casino?

Otélo – O Jô jogaram ele lá pras onze e meia. Mas tem talento. O talento supera tudo.

Ediel – Quem era o melhor papo da turma?

Otélo – Aí era páreo duro. Tinham vários. O Haroldo Barbosa era um bom papo. Engraçado pra burro. Chegava numa mesa e fazia todo mundo rir.

Ykenga – Qual a participação das mulheres na turma?

Otélo – As mulheres vieram muito depois. Tinha a Aracy de Almeida, a Eneida (Helô Pinheiro, modelo que ficou conhecida por ter sido a musa inspiradora de Tom Jobim e Vinicius de Moraes para a canção “Garota de Ipanema”), a Leila Diniz… Leila foi a primeira mulher a freqüentar um bar. A Leila tirou a mulher do tronco, como dizia Carlos Drummond de Andrade.

Jaguar – Tirou do tronco e levou o tronco pra cama (risos).

Ediel – Sérgio Porto bebia pouco? É verdade que ele passava a noite mexendo o gelo do copo com o dedo?

Otélo – Ele bebia pouco. O Sérgio bebia pouco. Vinícius bebia bem. O Lúcio Rangel, também. O Sérgio, não.

Jaguar – O Sérgio não bebia, o dedo dele é que era alcoólatra (risos).

Ediel – Na sua época, era fácil viver de humor?

Otélo – Não, era pior que hoje. Havia muita concorrência e o mercado era menor. A minha vantagem é que eu só fazia futebol.

Ferreth – É verdade que o Teo ia todo bonitinho pra revista “O Cruzeiro” e saía todo amarrotado?

Otélo – Ele bebia muito. O Teo era pau-d água.

Ediel – Você que por tantos anos fez coluna de humor, ironicamente, parou justamente por problemas na coluna?

Otélo – Eu passava muitas horas sentado desenhando, então como eu sou alto, ficava muito tempo curvado. Fatalmente, com o tempo, eu teria problemas de coluna, né, doutora? (dirigindo-se à Célia, mulher do Jaguar, que acabara de chegar)

Ediel – Que conselhos você daria para um garoto quisesse seguir seus passos?

Otélo – Bom, primeiro ele tem que gostar de futebol e desenho. Tem que ter essas duas paixões e depois ter um pistolão como o Dr. Roberto Marinho (risos).

Jaguar – Ou como a dona Lili de Carvalho.

Otélo – É. Roberto Marinho está apaixonado. Agora ele não morre mais. Um homem apaixonado não morre. Agora, se o amor acabar, é fatal (risos).

N.A.: Otélo faleceu em janeiro de 2006, aos 80 anos. Essa foi sua última entrevista (publicada nos jornais “O Folha de Minas”, “Hic!” e no site “Tribuna HQ”. 

FIM

 

Tags: cartooncartunistachargesotélo caçador
Ediel Ribeiro

Ediel Ribeiro

"Coluna do Ediel" Ediel Ribeiro é carioca. Jornalista, cartunista e escritor. Co-autor (junto com Sheila Ferreira) do romance "Sonhos são Azuis". É colunista dos jornais O Dia (RJ) e O Folha de Minas (MG). Autor da tira de humor ácido "Patty & Fatty" publicadas nos jornais "Expresso" (RJ) e "O Municipal" (RJ) e Editor dos jornais de humor "Cartoon" e "Hic!". O autor mora atualmente no Rio de Janeiro, entre um bar e outro.

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