14,Dec
Coluna

EU SOU SELARÓN

Rio - Pra quem já frequentou - ou morou - na Lapa, é natural já ter esbarrado com um sujeito bigodudo, sem camisa, de short vermelho, pedalando uma velha bicicleta pelas ruas do bairro. 

Era Jorge Selarón, um pintor e ceramista chileno, radicado no Rio de Janeiro, que ficou famoso por seu quadros que retratavam negras gravidas no início da década de 90.

Aos dez anos, Selarón saiu de casa para tentar a sorte na Argentina. Aos dezessete anos, viajou à Europa de carona num navio. Passou por 57 países até se decidir pelo Rio de Janeiro.

Na Cidade Maravilhosa, Selarón fixou residência na Lapa, junto A Escadaria do Convento de Santa Teresa, também conhecida como "Escadaria Selarón", que liga a Rua Joaquim Silva, no bairro da Lapa, à Ladeira de Santa Teresa, no bairro de Santa Teresa.

Eu tinha um bar chamado “Retiro dos Artista”, ao lado dos Arcos da Lapa, e Selarón, de vez em quando, passava por lá com sua velha bicicleta para tomar uma cerveja e bater papo.

Ele estava cobrindo de azulejos a escadaria ao lado dos Arcos. Queria fazer alí o que fez na escadaria do convento. Em 2012, a obra foi demolida pela prefeitura após protestos de que estaria interferindo com o monumento histórico. 

Misturando o português com espanhol, e dizendo muitos palavrões, gostava de falar de seu trabalho na escadaria que ele transformou em um dos principais cartões postais da cidade. 

Era a vida dele. Gastava todo o dinheiro que ganhava com a venda dos quadros com azulejos para a escadaria.

Logo que foi morar ao lado da escadaria, Selarón começou a fazer intervenções nos 250 degraus. Primeiro, foram as banheiras ajardinadas  instaladas ao lado dos degraus, inspirado no Parque Güel, de Barcelona. 

Com os festejos da Copa do Mundo, a escadaria ganhou os famosos azulejos verdes, amarelos e azuis. Em 2010, Selarón concluiu a imponente bandeira na parte alta da escadaria, na esquina da Rua Pinto Martins. 

Arte: Nei Lima

Hoje, a Escadaria Selarón decorada com mais de 2 mil azulejos trazidos de mais de 60 países ao redor do mundo, além das 300 peças pintadas a mão pelo próprio artista, é uma obra de arte única.

A partir de 2000, Selarón introduziu os azulejos vermelhos na escadaria; segundo o artista, a cor mais bonita do mundo era também uma homenagem a Ferrari. 

Em maio de 2005, a escadaria foi tombada pela prefeitura da cidade e Selarón recebeu o título de cidadão honorário do Rio de Janeiro. 

Hoje, a Escadaria Selarón é famosa no mundo inteiro. Já foi tema de reportagens de jornais, revistas e programas de TV. Serviu de cenário para videoclipes, campanhas publicitárias e séries de televisão.

Antes de sua morte, Selarón disse, no documentário “Selarón - a loucura”: Eu sou Selarón. E a escadaria é minha vida.

O pintor foi encontrado morto na Escadaria Selarón, tornando-se, como era seu desejo, parte da escadaria, que tornou famosa, na manhã do dia 10 de janeiro de 2013. 

* Ediel Ribeiro é jornalista e escritor

Ediel Ribeiro (RJ)

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Coluna do Ediel

Ediel Ribeiro é carioca. Jornalista, cartunista e escritor. Co-autor (junto com Sheila Ferreira) do romance "Sonhos são Azuis". É colunista dos jornais O Dia (RJ) e O Folha de Minas (MG). Autor da tira de humor ácido "Patty & Fatty" publicadas nos jornais "Expresso" (RJ) e "O Municipal" (RJ) e Editor dos jornais de humor "Cartoon" e "Hic!". O autor mora atualmente no Rio de Janeiro, entre um bar e outro.

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