19,Jun
Coluna

Queda

Feriado de sol! Uma praça movimentada da cidade. Chão de terra e alguns brinquedos que estão ali há algumas gerações. Os clássicos: carrinho de bate bate, carrossel e um tal de elefante que só faz girar len ta men te.

Mas o que me chama a atenção não são essas características que tornam aquele lugar, um lugar de passeio, brincadeiras e .... crianças, muitas crianças.

O que me chama atenção é que, perto do tal elefante lento, uma criança cai no chão de areia. Antes mesmo de dar o primeiro sinal do que seria um possível choro, a mãe diz: Levanta daí, não foi nada...passou, passou!

A memória vai lá atrás, me fazendo recordar de quando meus pais me falavam isso.

O arranhão no brinquedo da escola aos 5 anos...

- Não foi nada não... ehhhh!!

A queda de um banco alto aos 7 anos...

- Passou, levanta ...ehhh!

Acho que os adultos sempre colocam um “EHHH” no final do consolo pra tipo dar uma animada na criança, sabe? Mostrar alegria, dizendo que aquilo foi algo sem importância.

Como numa repetição sem criatividade nenhuma, me vejo hoje fazendo o mesmo com a minha sobrinha de 3 anos.

- Gigi caiu! (Ela gosta de informar suas quedas)

- Foi nada não, passou, passou... ehhhh! (A tia aqui falando em tom alegre, para que nada se torne maior do que realmente foi)

Quem dera que na vida de adulto fosse assim, um “ehhh, foi nada não” resolvesse. Não é assim e está longe de ser.Cair, reconhecer que caiu, chorar. Faz parte de todas as etapas da nossa vida, não só da infância. Mas na infância a gente sempre tem um adulto dizendo que não foi nada... e gritando um “ehhh” para aliviar a dor da queda.

No mês que passou, tive alguns momentos de quedas e de perdas de pessoas próximas.

Nenhum “tapinha nas costas” e “levanta daí”, faz sarar rápido a perda de um amigo.

Essa semana o samba brasileiro teve uma grande perda. Beth Carvalho cantava um dos refrãos mais conhecidos do Brasil: “Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”.

Talvez tenha sido a queda de uma criança que a inspirou a gravar a música.

Em um feriado de sol, numa praça movimentada da cidade com chão de terra.

É o que eu digo sempre: é preciso aprender com as crianças, e sempre que possível, ter uma música de fundo para inspirar e ajudar a dar a volta por cima...até porque, como também cantava a madrinha do samba: O show tem que continuar!

Mona Vilardo

6 Posts

Soprano Literário

Mona Vilardo começou seus estudos e carreira musical aos 8 anos de idade, cantando no Coral Infantil do Rio de Janeiro, com Elza Lackchevitz e estudando piano no curso técnico da UFRJ. Ingressou na Unirio aos 18 anos, onde se formou em Canto Lírico na classe da professora Mirna Rubim. Cantou em corais como Coro de Ópera do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, Coro Sinfônico do Rio de Janeiro, Conjunto vocal Calíope e Grupo vocal Mulheres de Hollanda. Atua desde 2008 na preparação vocal de peças de teatro musical, como "Billy Holiday - amargo fruto" e "Emilinha e Marlene - as Rainhas do Rádio" - apresentado inclusive no Palácio das Artes em BH. Fez também a preparação vocal e os arranjos vocais para o espetáculo "Contra o Vento - um musicaos" que ficou em cartaz no CCBB Rio e Brasília. Foi aluna do Teatro O Tablado, onde também foi assistente de Luiz Carlos Tourinho. Desde 2017 é roteirista, produtora, atriz e cantora do seu espetáculo em homenagem ao centenário de Dalva de Oliveira, chamado "Mona canta Dalva", que estreou no Teatro Maison de France RJ, com direção de Marcia do Valle, e ainda está em circulação. Atualmente é cantora do Grupo Vocal Equale, que ganhou o 29º Prêmio da Música Brasileira, em 2018, como melhor grupo de mpb. Escreve para o site literarte.art desde setembro de 2018 e em março de 2019 irá lançar o livro infanto juvenil sobre a vida de Dalva de Oliveira, numa coleção chamada "Elas por ela - as Rainhas do Rádio por Mona Vilardo".

Comentários