Coluna

Livros, sim; armas, não!

Crianças em exercício de leitura na escola. Direito inalienável de todo ser humano; a leitura vai muito além dos livros e trata-se de jeitos de ler o mundo”, segundo Paulo Freire. Foto Elza Fiúza - Agência Brasil
Crianças em exercício de leitura na escola. Direito inalienável de todo ser humano; a leitura vai muito além dos livros e trata-se de jeitos de ler o mundo”, segundo Paulo Freire. / Foto Elza Fiúza - Agência Brasil

- Athaliba, o atual governo prega que a política agora é mais bibliotecas e menos clubes de tiro. Isso, por exemplo, amigo, se contrapõe à censura de clássicos da literatura nas escolas, como ocorreu no governo do energúmeno mito pés de barro. Ele, que tem aversão à cultura e com testosterona expelida pelo avesso, estimulou o armamento da população. Argumentava que “o povo armado jamais será escravizado”. E reforçava: “Comprem armas, isso também está na Bíblia; onde se diz vende o teu manto e compre uma espada”.

- Isso, Marineth, ele discorreu em evento promovido pela Confederação da Agricultura e Pecuária, 9/8 de 2022. E o general da reserva, Walter Braga Netto (candidato a vice-presidente), à mesa da reunião, aplaudiu, com entusiasmo. À época, o registro de novas armas de fogo nas mãos de civis batia recorde do ano anterior, atingindo a marca de 204,3 mil armas licenciadas. Alta de 300% em relação as 51 mil armas registradas em 2018. O acesso à arma, para o mito pés de barro, constituía “preservação e potencialização do exercício de legítima defesa”.

- Athaliba, ainda bem que o período obscuro, indigesto, da vida conjuntural brasileira à qual originou grande retrocesso ao país está se esvaecendo. O mito pés de barro de araque deteriorou o que tínhamos minimamente organizado na sociedade. Lá em Rondônia - ocê não esqueceu não, né? -, livros de Machado de Assis, Mário de Andrade, Nelson Rodrigues, Euclides da Cunha, Ferreira Gullar, Rubem Fonseca e até de Franz Kafka foram proibidos nas escolas. Mais de 40 clássicos da literatura foram recolhidos, deixando professores embasbacados, apalermados.

- Lembro bem, Marineth, e não vou esquecer jamais. A catastrófica proeza da censura, conhecida como “caça a conteúdos inadequados”, teve a chancela do então governador Marcos Rocha. Ele, natural do Rio de Janeiro, coronel de polícia de extrema direita, fora eleito, em 2018, surfando nas águas turvas que colocou o mito pés de barro no trono da presidência da República. Na campanha e, após eleito, afirmava que existia doutrinação de esquerda nas escolas, rotulada de “marxismo cultural”. Dizia que havia excesso de textos e pedia mais desenhos nos livros.

- É prá rir da idiotice, Athaliba, e não chorar. Cômico, como se não fosse trágico. Acredito que ocê também não tenha esquecido os desventurados ministros de Educação. O 1º, Ricardo Vélez Rodriguez, colombiano e naturalizado brasileiro, queria mudar os livros de história para distinguir o golpe de 1964 como contragolpe que salvou o Brasil do comunismo. O 2º, Abraham Weintraub, tentou intervir na nomeação de reitores de universidades federais. Disse ele, numa reunião ministerial: “Eu, por mim, botava esses vagabundos (os ministros do Supremo Tribunal Federal) na cadeia”. E participou de manifestações públicas contra o STF.

- Marineth, infeliz o 3º ministro, né? Foi anunciado titular do MEC e não tomou posse.

- Pois é, Athaliba. Descobriu-se que o Carlos Alberto Decotelli da Silva não era doutor pela Universidade Nacional de Rosário, na Argentina, como ele afirmava no currículo. O 4º ministro, o pastor presbiteriano Milton Ribeiro, chegou a ser preso, sob a acusação de favorecer pastores na distribuição de verbas. Isso somado a crimes de corrupção, prevaricação e tráfico de influência. O pastor ocultava arma de fogo, que disparou no Aeroporto de Brasília. Dizia que “os homossexuais são consequência de famílias desajustadas”.

- Além disso, Marineth, o pastor mandou imprimir fotografias dele e, também, dos pastores Arilton Moura e Gilmar Santos, na Bíblia. Exemplares foram distribuídos em evento do Ministério da Educação em Salinópolis, no Pará, que reuniu prefeitos e secretários municipais. Os pastores Arilton e Gilmar teriam pedido propina em barra de ouro em troca de acesso ao então ministro e liberação de verba, conforme nos jornais, revistas e sites noticiaram no ano passado.

- Bem, Athaliba, o desastroso mandato do mito pés de barro terminou com Victor Godoy como 5º ministro. Ele, braço direito do pastor Milton Ribeiro e que ocupava o cargo de secretário-executivo. Essa trágica explanação no MEC se faz necessária para confrontar com a proposta do atual governo. A ordem é focar no “direito inalienável de todo ser humano; a leitura vai muito além dos livros e trata-se de jeitos de ler o mundo”, segundo análise de Paulo Freire, o Patrono da Educação.

- Marineth, a leitura é capaz de arrancar véus dos olhos!

- Não duvido disso, Athaliba. A retomada do Plano Nacional do Livro e Leitura - PNLL - tem tudo para mostrar à sociedade que fundamental, essencial, é livros, sim; armas, não!

Lenin Novaes

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Crônicas do Athaliba

LENIN NOVAES jornalista e produtor cultural. É co-autor do livro Cantando para não enlouquecer, biografia da cantora Elza Soares, com José Louzeiro. Criou e promoveu o Concurso Nacional de Poesia para jornalistas, em homenagem ao poeta Carlos Drummond de Andrade. É um dos coordenadores do Festival de Choro do Rio, realizado pelo Museu da Imagem e do Som - MIS

Comentários


  • 08-05-2023 22:40:27 Julio Oliveira

    Pegue um livro e leia ele é tua única arma contra os exploradores.