Coluna

FUGA

PLACA
Foto: Possessed Photography on Unsplash -  

Vivemos um paradoxo entre isolamento e fuga. A questão seria fugir para onde?

O isolamento não é vivido somente para aqueles que estão confinados, receosos de contrair uma doença desconhecida ou de ajudar a transmissão para outros. Alguns são conscientes de que seu confinamento favorece à diminuição da contaminação e, apesar de poder se dirigir às ruas, resguardadas algumas formas de proteção, preferem se manter reclusos, usando as saídas, estritamente, necessárias.

Outros acham que o confinamento levaria a um stress desnecessário e vale mais a pena correr o risco do que morrer de tédio.

Tudo isso pode ser resumido a uma fuga da realidade. Não importa em que situação nós estamos, sempre parecerá que estamos fugindo de alguma coisa ou de alguém. Até mesmo uma caminhada nas ruas, evitando encontros, pode ser vista como uma fuga. Chegamos ao ponto de fugir de nossos semelhantes.

Colocar filmes antigos na televisão parece uma volta ao passado. Um passado onde assistíamos filmes apocalípticos, de finais do mundo e, hoje, vemos desse mundo distópico uma realidade que vivemos, fazendo do passado um desejo para o futuro.

Fugas podem ser comparadas a viagens, mesmo que pilotadas pela imaginação. E a busca é sempre por um mundo melhor, e podemos considerar que aquele mundo anterior era melhor. Mesmo com ele sendo a preparação para a tragédia que vivemos hoje.

Podemos, também, falar de outras fugas. Quando pessoas conscientes, através das redes sociais, tentam convencer outras de que as medidas necessárias para a nossa sobrevivência passam pela ajuda que podemos dar uns aos outros. Fugir é negar a existência da tragédia, como se a ignorância fosse um escudo perfeito para não se pensar no inimigo.

Esse ponto da ignorância é importante para entender o mundo em que vivemos. Nosso mundo evoluiu, formidavelmente, com o avanço da ciência. Não importa de onde venha a tecnologia, nós a absorvemos sem nos importar. No entanto, quando a solução para os nossos problemas vêm de lugares onde, supostamente, não gostamos, essa fuga beira ao ridículo.

Podemos concluir que as fugas escondem um estado de vergonha alheia. Tentar fugir das argumentações, negar acontecimentos. Quando estabelecemos teorias conspiratórias para justificar nossos atos, sim, podemos dizer, uma fuga irreal.

Contudo, determinadas fugas têm um sentido político insano, que nos surpreende vendo alguns defendendo o ridículo. Me pergunto que fuga é essa?

Uma das fugas menos impensável é fugir de si mesmo e da realidade. Porém, não se sabe se por maestria ou estupidez, algumas pessoas conseguem. 

Nilson Lattari

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Crônicas e Contos

NILSON LATTARI é carioca e atualmente morando em Juiz de Fora (MG). Escritor e blogueiro no site www.nilsonlattari.com.br, vencedor duas vezes do Prêmio UFF de Literatura (2011 e 2014) e Prêmio Darcy Ribeiro (Ribeirão Preto 2014). Finalista em livro de contos no Prêmio SESC de Literatura 2013 e em romance no Prêmio Rio de Literatura 2016. Menções honrosas em crônicas, contos e poesias. Foi operador financeiro, mas lidar com números não é o mesmo que lidar com palavras. "Ambos levam ao infinito, porém, em veículos diferentes. As palavras, no entanto, são as únicas que podem se valer da imaginação para um universo inexato e sem explicação".

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