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NUPCIALIDAD

Por Nilson Lattari
7 de janeiro de 2022 - 07:29
em Colunas

Foto:Luca Upper on Unsplash -  

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Esta palavra não pertence à língua portuguesa, é uma expressão da língua espanhola. Significa casamentos múltiplos. Nós não temos essa expressão para definir casamentos simultâneos. Ela fica no contexto das palavras intraduzíveis. Seria, mais ou menos, uma casamentada.

Muitas coisas que acontecem dentro dos ambientes políticos, sociais, de relações comerciais poderiam ser reduzidas a algumas palavras simplificadoras.

Temos algumas, como, por exemplo, roubalheira, aquela sucessão de roubos múltiplos, imaginando que um ladrão teria muitas mãos para surrupiar o alheio, ou muitos ladrões agindo simultaneamente.

Temos a bandalheira, que é uma sucessão de bandalhas, uma simultaneidade de bagunças, desarrumação, um monte de coisas erradas feitas, sucessivamente, ao mesmo tempo, ou ao longo do tempo.

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O termo vai para a bandidagem, que é uma atuação constante de cometer atos bandidos. Ou a trolagem, que é fazer um tipo de bullying que leva a vítima à loucura, pela perseguição.

E, ao final de tudo, a politicagem, que é uma atuação política não com o intuito de fazer política, mas fazer, exatamente, o que não é política, uma espécie de política e sacanagem misturadas.

Mas, a melhor de todas é a bobajada. Aquela sucessão de bobagens ditas por alguém proeminente, ocupando um cargo de relevância, tipo… o chefe. Os chefes são muitos. Têm aqueles que gostam de ser chefe para poder expor suas bobagens com autoridade… de chefe. Outros falam bobagens, com tal naturalidade, que aspiram ou não imaginam que, um dia, poderão ser… chefes.

No nosso mundo, essas bobagens múltiplas, algumas vezes, têm um objetivo. Quando é necessário colocar um ponto de atração para desviar a atenção do respeitável público, como aquele boi largado no rio de piranhas para passar a boiada. E, acredite, quem faz isso não é, necessariamente, um bobo.

A sucessão de bobagens, a bobajada, tem a característica de irritar quem não a compreende tanto quanto agrada àqueles que gostam de ouvir bobagens, como uma maneira de reinventar a realidade.

A bobajada não é uma realidade colocada sem nenhum sentido. Ela é utilizada com o objetivo de distrair. E, para isso, nada melhor que procurar um expert no assunto, alguém que fale bobagens, de uma forma tão natural, que se parecem com a realidade. A multiplicidade das bobagens, casadas com as relevâncias, tem um objetivo, principalmente quando se encontra o bufão da ópera para legitimá-las. Com a devida plateia de bobos para aplaudir.

Mas a nupcialidad seria um casamento, a união de dois opostos, digamos assim. A bobagem não é solteira, ela não casa consigo mesma, a bobagem precisa de um oposto. O oposto a ela é a relevância, porque a bobagem é bobagem. O casamento significa que para desvalorizar a relevância, o que é importante, é necessário uma bobagem para desmerecê-la. o resultado desse casamento é a nulidade social, é a discussão interminável sobre coisas irrelevantes.

A bobajada tem uma lógica. A lógica de demonstrar que o relevante é desnecessário. Todo aquele que fala bobajada, ri de si mesmo e das suas bobagens, como se fossem relevantes. As bobagens que vagam por aí são múltiplas. Ditas em profusão têm o objetivo de paralisar, de causar o desânimo.

Mas, no meio dessa bandalha, a gente chega a duvidar se a bobajada, realmente, não tem um sentido de bandidagem, fingindo ser trolagem.

Tags: ColunaNilson Lattari
Nilson Lattari

Nilson Lattari

Crônicas e Contos. NILSON LATTARI é carioca e atualmente morando em Juiz de Fora (MG). Escritor e blogueiro no site www.nilsonlattari.com.br, vencedor duas vezes do Prêmio UFF de Literatura (2011 e 2014) e Prêmio Darcy Ribeiro (Ribeirão Preto 2014). Finalista em livro de contos no Prêmio SESC de Literatura 2013 e em romance no Prêmio Rio de Literatura 2016. Menções honrosas em crônicas, contos e poesias. Foi operador financeiro, mas lidar com números não é o mesmo que lidar com palavras. "Ambos levam ao infinito, porém, em veículos diferentes. As palavras, no entanto, são as únicas que podem se valer da imaginação para um universo inexato e sem explicação".

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