Coluna

Qual foi a última vez que você fez algo pela primeira vez?

Dezembrou meus amigos, daqui a pouco o ano de 2021 será apenas um amontoado de recordações dentro de nós. Há quem se lembrará dele com um sorriso saudoso e há quem se lembrará dele com aperto no coração devido às dores e faltas que experimentou. Gosto sempre de pensar que os trinta e um dias de Dezembro significam aqueles segundos finais do segundo tempo de um jogo de futebol mega importante. É a nossa última oportunidade para fazer com que 2021 seja eterno em nós! 

O diálogo que vamos narrar se passa em 2031, por volta das 11 da manhã de uma terça-feira, quando duas amigas resolvem interromper o expediente e sair pra tomar uma cervejinha antes do almoço pra ficar pensando melhor. Ao passarem por uma banca de Jornal leem a notícia de que uma cientista negra e brasileira chamada Katemari Rosa será homenageada na sede da OMS, na Suiça, pois está completando 10 anos que ela desenvolveu a cura para todas as mutações do vírus SARS-CoV-2, salvando a humanidade do 1º ceifador, e então o ano de 2021 fica sendo o tema das prosas do dia. 

Art: @horoscopoesia

- Menina, e aquele 2021 que mudou nossas vidas! se você não tivesse mandado aquela mensagem... Se eu não tivesse vencido meu orgulho e aceitado o pedido de desculpas. Se você não tivesse enlouquecido em pleno dia útil, em pleno horário de trabalho, e entrado naquele avião! Se eu não tivesse saído da minha zona de conforto... 

- Hahaha e tudo por causa de um comercial de refrigerante!

- Como assim? Essa é nova pra mim. 

- Uai eu não te contei na época? Então, eu resolvi te chamar naquela rede social depois de tanto tempo sem contato porque uma frase de um comercial de refrigerante grudou na minha mente. Eu tinha chegado em casa, exausta como de praxe, e só queria deitar no sofá e assistir alguma besteira, aí ligo a TV e ouço essa frase: Qual foi a última vez que você fez algo pela primeira vez? E lembrei que tinha sido com você, há muitos anos atrás naquela praia de Porto Seguro, aí um filme passou na minha cabeça e resolvi te procurar. 

- Quanto peso numa só frase ein! E no mês de Dezembro ainda, vixi, é o tipo da coisa que gera crises existenciais, é quando a gente se pergunta se tá vivendo ou apenas pagando boleto... 

- Foi esse caos que fez parir em mim uma estrela dançante! Oras bolas, se eu nunca acreditei no sistema, no mercado, na mídia, no modelo tradicional de família, no trabalho alienante, no dinheiro como a única moeda de troca, por que eu ainda colocava todos os meus dias à disposição dessas estruturas falidas? 

- E foi aí que você resolveu largar tudo? 

- Foi aí eu que eu resolvi confiar no meu coração e na memória ancestral que pulsa dentro de cada célula do meu corpo sempre que eu coloco o meu tempo, a minha energia e os meus talentos em ações que eu acredito, e não apenas na manutenção de um modelo de vida que está com prazo de validade vencido. 

 - Pois é, preta, e cá com meus botões, acho que todos os nossos amigos que realmente vão à fundo nas suas origens também não se conformam com essa normose, sabe? nenhum deles querem passar o resto de suas vidas apenas alimentando esse sistema através de uma vidinha medíocre baseada no consumismo... Eles sabem que os nossos antepassados foram acorrentados de forma vil e brutal, e se hoje a gente pode ser livre, por que raios optamos por nos acorrentar também, mas agora em correntes mentais?  

- Tô contigo. A libertação das nossas mentes é o único caminho!

Sheila Santos

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Coluna Preta

Sheila Santos é Mulher cis, preta, LGBTQIA+, paulistana, amante de samba e dos morros montanhosos de Minas Gerais. É Socióloga, Historiadora, Mestra em História e Doutoranda em História, e por tudo isso, acredita que contar histórias é uma forma de adiar o fim do mundo. Atua como Professora e como agitadora cultural em Diamantina (MG), é idealizadora do Fanzine “A voz (des)viada do Vale do Jequitinhonha” e do livro oriundo de sua dissertação de Mestrado, intitulado:"Quem não eco, nem sabe que já deixou de existir - A experiência contracolonialista do Quilombo Carrapatos da Tabatinga".

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