Coluna

Quando o racismo acabar...

Esses dias enquanto cumpriamos o habitual ritual de todos os dias de manhã – aguar as plantas, dar água para os passarinhos, ração para o cachorro, sachê para o gato, pôr as marmitas nas lancheiras – Rovena solta uma daquelas perguntas de criança, nenhum pouco infantis: Mãe, e quando o racismo acabar? Dei um salto pra trás, não esperava uma dessas às 6:35 da manhã e o pior, vinda de uma criança de 4 anos de idade. Como o maternar é essa experiência integral, onde não se escolhe quando ou como educar, lá vamos nós... respira fundo, pede ajuda pra Oxum e aceita o desafio.

- Filha, quando o racismo acabar não vamos mais precisar esconder a nossa divindade. Poderemos ser tudo o que lá no fundo a gente já sabe que é. 

(pausa de eternos segundos com Rovena olhando fixamente em meus olhos...)

- UAUUUUU! E eu não vou mais precisar esconder os super poderes que a vovó me deu? 

(outra pausa... ainda mais eterna... dessa vez sou eu que, desconcertada, tento encontrar as respostas para as pergunta que ainda não fiz nos olhos de Rovena. A pequena nunca conheceu nenhuma de suas avós. Minha mãe desencarnou um pouco antes dela nascer e a mãe do pai dela nunca teve interesse em conhecer uma neta “de cor”).  

- Não, filha, não vai. Mas que vovó é essa? Você sabe que a mãe da mamãe voltou pro plano espiritual quando a Rovena ainda era uma sementinha. 

- Nossa, quando eu puder usar todos os meus superpoderes vai ser muito legal, vou poder ser uma montanha em um dia, flor em outro, uma borboleta, um pássaro... vou poder ser lagartixa e quando eu cansar vou virar parede! Genial! 

- Olha que legal! o superpoder que a vovó deu pra Rovena é se transformar em outros bichinhos? 

- Não né, mãe, esse tipo de poder só existe em desenho animado. Meu superpoder é amar todos os seres vivos. 

(mais uma pausa longa...

olhos cheio d’água... 

garganta seca...

pernas tremendo...)

- Que foi? A mamãe não conhece esse tipo de poder? 

(bebo um gole de café pra fingir costume...) 

- Acho que conheço, mas não tô lembrada, como que é? 

- É que a luzinha viva que existe dentro de mim, dentro da senhora, dentro da Xupeta (a doguinha), e do Rosbife (o gato), e dentro das plantas, das montanhas e até da parede é a mesma luzinha viva. E é também a mesma luzinha viva que existiu láááááááááá no tempo da vovó e muiiiiiiiiitooooo antes dela também, é a mesma luzinha que existiu quando o Baba (Deus) criou o mundo. E quando essa luzinha acende lá no tum tum (coração), eu amo eles e posso ser eles um pouquinho. 

Depois de 10 anos estudando filosofia na Universidade, engatando graduação atras de graduação, mestrado em doutorado, é Rovena, minha filha de quatro anos que se revela a melhor professora de Filosofia que eu já tive. Em um diálogo de cinco minutos em uma manhã ensolarada ela me ensinou mais sobre Cosmofilia e de um modo tão simples e profundo que nem  “as mentes mais brilhantes” com seus PHDs conseguiriam. Eu, você e tudo o que existe, nós somos a energia viva divina que existe e sempre existiu desde o começo dos tempos. Mas só vamos entender isso quando o racismo acabar. Ou o racismo só vai acabar quando entendermos isso. 

Sheila Santos

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Coluna Preta

Sheila Santos é Mulher cis, preta, LGBTQIA+, paulistana, amante de samba e dos morros montanhosos de Minas Gerais. É Socióloga, Historiadora, Mestra em História e Doutoranda em História, e por tudo isso, acredita que contar histórias é uma forma de adiar o fim do mundo. Atua como Professora e como agitadora cultural em Diamantina (MG), é idealizadora do Fanzine “A voz (des)viada do Vale do Jequitinhonha” e do livro oriundo de sua dissertação de Mestrado, intitulado:"Quem não eco, nem sabe que já deixou de existir - A experiência contracolonialista do Quilombo Carrapatos da Tabatinga".

Comentários


  • 26-11-2021 15:30:30 J. Cícero Alves

    Muito bom o texto e bastante expressivo. Um relato comovente e ao mesmo tempo fortalecedor. Comovente porque, ao ler o texto em pauta, a gente sente as mesmas emoções que a autora certamente sentiu ao ser lembrada pela filha da “luzinha viva” que existe dentro de cada um de nós, energia primordial divina manifestada na Terra. Fortalecedor porque o texto encerra em suas linhas a poderosa mensagem de que somos tudo e todos seres divinos, “a energia viva que existe e sempre existiu desde o começo dos tempos”. Os que alimentam a insana ilusão de superioridade racial em relação aos negros deveriam saber, antes de tudo, que SOMOS TODOS UM, “reflexos da divindade única, faces do Ser imortal único”, como a lua, que se reflete em muitos lagos, produzindo um grande número de reflexos, mas existe uma só lua. O racismo é realmente um vício social abominável, arraigado em nossa cultura desde os tempos do Brasil Colônia. Infelizmente, a nossa sociedade é predominantemente racista, sendo o Brasil um dos países onde mais se verifica violência contra negros no mundo. O preconceito racial não é um sentimento que brota de repente, da noite para o dia. Ninguém nasce racista !! O racismo, como todas as demais formas de preconceito, é produto de um aprendizado que tem suas raízes, muitas vezes, no seio da própria família. Lamentavelmente !! Já dizia Nelson Mandela: “Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, ou por sua origem, ou sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se elas aprendem a odiar, podem ser ensinadas a amar”.