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ANTIRACISMO NA PRÁTICA

Falar sobre descolonização está na moda. A indústria têxtil tem faturado bilhões em camisetas com frases antiracistas. O vocabulário antiracista é riquíssimo, composto por palavras bonitas como: interseccionalidade, colorismo, representatividade, afroreferência, racismo estrutural e etc. Mas, cá entre nós, fora das redes sociais e das lives, isto é, quando somos apenas pessoas comuns, que usam meias furadas e guardam a panela de arroz na geladeira só com dois punhadinhos de grãos por pura preguiça de lava-la, enfim, quando estamos à sós com nós mesmos, qual o lugar do nosso antirracismo?

Foto: Melissa Alcena - 

. Você maratonou as dezessete temporadas de Grey’s Anatomy e em nenhum momento sentiu uma pontinha de desconforto com o elenco majoritariamente branco?

. Você participou da última versão do Lollapalooza no Brasil, que aconteceu em 2019, e não achou esquisito que no meio de 90 mil pessoas, podia-se contar nos dedos os corpos negros ali presentes?

. No caminho da sua casa até o trabalho, você encontra diversas pessoas em situação de rua, e dentro da condução sempre tem um ambulante vendendo doces. E em 99,9% das vezes eles são negros, mas você nunca tentou entender as causas e efeitos disso?

. Quando você sai de manhã pra correr, e encontra um jovem negro realizando a mesma atividade, como você o enxerga? como o seu corpo reage? quais pensamentos são criados em sua mente? quais sentimentos atravessa o seu coração? qual é o ritmo da sua respiração? você o cumprimenta? Se sim, qual o seu tom de voz? e se não, você cumprimentaria o jovem não fosse ele negro?

A minha provocação é para compreendermos que, diante da árdua missão de desmantelar o racismo estrutural, se não olharmos para dentro de nós mesmos, vasculhando todos os dias, cantinho por cantinho, as reminiscências do preconceito racial com determinação de extirpa-lo definitivamente do nosso ser, a amarga notícia que “a cada 23 minutos um jovem negro morre no Brasil” nunca se desatualizará. Afinal de contas, o que verdadeiramente você espera do seu antirracismo? Que ele te consiga 10k seguidores ou que ele seja uma efetiva ferramenta de transformação social?

Sheila Santos

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Coluna Preta

Sheila Santos é Mulher cis, preta, LGBTQIA+, paulistana, amante de samba e dos morros montanhosos de Minas Gerais. É Socióloga, Historiadora, Mestra em História e Doutoranda em História, e por tudo isso, acredita que contar histórias é uma forma de adiar o fim do mundo. Atua como Professora e como agitadora cultural em Diamantina (MG), é idealizadora do Fanzine “A voz (des)viada do Vale do Jequitinhonha” e do livro oriundo de sua dissertação de Mestrado, intitulado:"Quem não eco, nem sabe que já deixou de existir - A experiência contracolonialista do Quilombo Carrapatos da Tabatinga".

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