Coluna

Sobre acreditar

Era novembro de 2012, eu estava há 1 ano de concluir o bacharelado em Ciências Sociais sem saber exatamente o que aquele diploma me reservava, e resolvi pleitear uma vaga de aplicadora do ENEM. Deu tudo certo e fui convocada.

No dia da prova, cheguei bem antes do horário dos servidores se apresentarem na Escola e fiquei ali encostada no muro, mexendo no celular. Qualquer um que observasse a cena, me confundiria facilmente com uma secundarista que aguardava ansiosamente pela prova que poderia mudar o rumo de sua história. Foi o que pensou Jacqueline, uma jovem negra moradora do Itaim Paulista (região periférica do extremo leste de São Paulo), de 19 anos, que me abordou com um sorriso amarelo e a testa franzida:

- Oi, você tem isqueiro?

- Tenho, peraí que tá lá no fundo da mochila. Pronto, aqui ó.

- Nossa, brigada, cê me salvou, viu?

- Cê tá muito nervosa, né?

- Pra caralho, mas esse cigarro vai me ajudar.

- Boto fé que pode ajudar, mas respira um pouco, cê tá tremendo toda. Se tu estudou vai dar tudo certo, pô.

- Não cara, essa porra não é só sobre estudar. Ano passado eu estudei 6 horas por dia, todos os dias, todos os finais de semana, sem folga, deixei de ir pros bailes, pro futebol, pras festas da família só pra me dedicar, e aí chego aqui nessa mesma Escola e tenho uma fodida crise de ansiedade e não consigo responder nenhuma questão. Um ano inteiro perdido cara, cê sabe o que é isso? 

Nesse momento, os aplicadores foram convocados a entrarem na Escola a fim de organizarem as provas e eu, diante daquele desabado furioso de Jacqueline só consegui lhe dizer: preciso ir, mas vai dar tudo certo, acredita!

garota negra
Arte: @ebti_n 

É claro que aquela história ficou morando em mim ao longo de muitos dias. Eu me culpava por não ter feito mais por Jacqueline. Me lembrava de quando eu tinha a sua idade, e passava pelo mesmo desafio, e me perguntava sempre o pra quê de tanto sacrifício se o meu futuro já estava traçado: tudo o que eu sabia fazer bem era limpar casa, então seria mais uma empregada doméstica igual foi a minha bisavó, minha avó, minha mãe e minhas tias, simples assim. Foi uma professora de Sociologia quem me fez alargar essas ideias, me fazendo acreditar que a Universidade era sim pra mim. Sobre Jacqueline, eu não sei dizer. Mas se eu pudesse voltar atrás e lhe dizer algo, seria mais ou menos isso:

- Irmã, você tem razão, quando nós, pessoas negras, tentamos uma vaga na Universidade Federal ou em um concurso público, ou uma vaga no Mestrado ou no Doutorado, ou tentamos pleitear aquela vaga de emprego dos nossos sonhos, o que está envolvido nisso, nunca é apenas a nossa dedicação, o nosso estudo. Não é apenas sobre meritocracia, é sobre a forma como o nosso pensamento foi organizado pela colonização que impede a gente de acreditar.

- Vou explicar melhor: os desejos de pessoas brancas sempre foram atendidos, por 300 anos foi dito para elas: você pode tudo. Tudo o que você quiser, tem gente pra realizar para você. Se você quiser beber água de madrugada, tem uma pessoa que passa a noite inteira ao lado da sua cama, segurando uma jarra para que você não precise nem se levantar. Daí o nome de criado mudo. E isso interfere em tudo. Toda a riqueza cultural, artística, linguística, religiosa, histórica, econômica, arquitetônica do Brasil tem a ver com isso.

- Do outro lado, nós, pessoas negras, precisamos matar todos os dias um dragão de dez cabeças que mora nas profundezas do nosso ser e tagarela sem parar: “esse lugar não é pra você” “pra quê dificultar se você pode facilitar, sendo garçonete, diarista, babá, vendedora de loja?” “quanta soberba, menina, Direito? Medicina? Arquitetura? Coloque-se no seu lugar”. Não bastasse esse dragão interno, ainda tem os fatores externo. A gente é brecada o tempo todo. Brecada de acreditar. Brecada de se sentir capaz de mirar lá no alto.

- O racismo quer determinar o nosso pensamento sobre nós mesmas. A psiquê colonial nos quer subalternas, ainda rastejando pelas migalhas da Sinhá, por isso é preciso extirpar com uma faca afiada esse complexo de inferioridade. Descolonizar o pensamento é desaprender tudo tudo tudo o que foi ensinado sobre nós e que nos causa algum desconforto, e assim conseguir acreditar realmente que é tudo nosso, que podemos ser tudo o que quisermos Ser.

Sheila Santos

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Coluna Preta

Sheila Santos é Mulher cis, preta, LGBTQIA+, paulistana, amante de samba e dos morros montanhosos de Minas Gerais. É Socióloga, Historiadora, Mestra em História e Doutoranda em História, e por tudo isso, acredita que contar histórias é uma forma de adiar o fim do mundo. Atua como Professora e como agitadora cultural em Diamantina (MG), é idealizadora do Fanzine “A voz (des)viada do Vale do Jequitinhonha” e do livro oriundo de sua dissertação de Mestrado, intitulado:"Quem não eco, nem sabe que já deixou de existir - A experiência contracolonialista do Quilombo Carrapatos da Tabatinga".

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