Coluna

NECROPOLÍTICA

Arte: Laerte

Quarta-feira, 05 de Maio de 2021, eu deito em minha cama para dormir ao som de grilos que serenamente anunciam o encerrar de um dia em terras mineiras. 

Quinta-feira, 06 de Maio de 2021, eu acordo em um cenário diferente. 

Cenário de Guerra, Carros blindados. Helicópteros sobrevoando a favela, policial apontando metralhadora na cabeça de uma mulher. Casas arrombadas, Agressão. Choro. Gritaria. Empurrão. Esculacho. Banho de sangue pelas ruas e vielas. Pai morto na frente da filha. Menino morto sentado em uma cadeira. 28 homens mortos. 28 homens mortos. 28 homens mortos. Quase todos mortos com tiro na cabeça, a maioria dentro de casa, não estavam armados, não houve troca de tiro. Chacina! Morticínio! Carnificina! 

O pretenso objetivo: cumprir com 21 mandados de prisão. Apenas 3 foram efetivados. Ou seja, não entraram para cumprir a Lei, mandados de prisão ou busca e apreensão.  

A real motivação da chacina: Vingar a morte do policial André, assassinado por traficantes naquela manhã. 

A “culpa” dos homens assassinados: Serem homens racializados, moradores de um território racializado. 

A postura do poder público: 

Policiais modificam a cena do crime e removem os corpos sem a realização de perícia.

A polícia comemora a operação. Descarta que teria cometido erros ou excessos.

O governador considera o ato como uma “operação de inteligência”. 

Sobre os civis mortos, o vice-presidente considera “Tudo bandido”.

“Os defensores dos direitos humanos têm o sangue do policial nas mãos”, diz o subsecretário que reclama de “ativismo judicial”. 

“Não tem nenhum suspeito aqui, tem criminoso, homicida e traficante” diz o Delegado que julga e condena os 28 homens mortos. 

Minha mente entra em curto-circuito, falta o ar, as mãos tremem. Embora fisicamente eu esteja há 700km daquele cenário, o medo, o desamparo, a revolta dos moradores da favela do Jacarézinho, no Rio de Janeiro, reverberam em mim. Me questiono. Estou no Brasil de 1964? 1968? 1969 ou 1977, ano em que Geisel fechou o Congresso? Vou tirar a prova real no imã da geladeira, é 2021. É o Brasil de Bolsonaro, onde não existe Estado Democrático de Direito nos territórios racializados, como as favelas e periferias do Estado do Rio de Janeiro. Não existe proteção à moradia. Não existe proteção à vida ou a inviolabilidade do domicílio. Não existe presunção de inocência. Lugares onde as operações policiais não visam cumprir a ordem, a Lei ou Constituição, visam apenas matar a rodo homens que não têm nome ou valor, homens cujas vidas perdidas servem apenas de “revide” para a morte de um policial.  

Entendo que para a população negra no Brasil, a passagem do tempo é uma abstração. Seja no período Colonial, no período Imperial, ou no período Republicano, nós, afrobrasileiros – quer sejamos, o negro, o mulato, o moreno, o pardo, o escuro, o crioulo, o mestiço, ou de qualquer outra classificação étnica ou gradação epidérmica, nós somos o alvo, porque esse é o estado da Necropolítica. Isso quer dizer que vivemos em zonas de morte, onde a impunidade é a regra para os responsáveis pela barbárie, pois ao nos definir como inimigos, plantam na sociedade a ideia de que, com as nossas mortes, não haverá mais violência. Assim, as nossas mortes são vistas como um mecanismo de segurança, semana passada 28 mortos, hoje dois, amanhã três, depois de amanhã mais cinco, tornando rotina o “deixar morrer”, o genocídio, processual e sistemático que nunca teve fim desde o primeiro homem negro que foi sequestrado em África para ser mão de obra escravizada nessas terras.  

 

A origem do termo Necropolítica parte da obra do filósofo, teórico político, historiador e intelectual camaronês Achille Mbembe. Mbembe nasceu na República dos Camarões, país da região ocidental da África Central, no ano de 1957 (64 anos). Atualmente é professor de História e de Ciências Políticas do Instituto Witwatersrand, em Joanesburgo, África do Sul e na Duke University, nos Estados Unidos. Para ele, Necropolítica é o poder de ditar quem pode viver e quem deve morrer a partir de um parâmetro definidor primordial da raça.

Sheila Santos

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Coluna Preta

Sheila Santos é Mulher cis, preta, LGBTQIA+, paulistana, amante de samba e dos morros montanhosos de Minas Gerais. É Socióloga, Historiadora, Mestra em História e Doutoranda em História, e por tudo isso, acredita que contar histórias é uma forma de adiar o fim do mundo. Atua como Professora e como agitadora cultural em Diamantina (MG), é idealizadora do Fanzine “A voz (des)viada do Vale do Jequitinhonha” e do livro oriundo de sua dissertação de Mestrado, intitulado:"Quem não eco, nem sabe que já deixou de existir - A experiência contracolonialista do Quilombo Carrapatos da Tabatinga".

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