Coluna

Será que o banzo acaba?

No mês mais letal da pandemia do Coronavírus, a saúde mental de boa parte da população negra brasileira também se deteriorou. Além de termos que lidar com a violação diária de direitos humanos, onde a pobreza, a desnutrição, o stress, a violência e a ausência de sanitização fazem de nós a população mais vulnerável dessas terras, também em contextos pandêmicos; precisamos ainda lidar com um longo período de tempo longe dos espaços de re-humanização, espaços onde somos reconhecidos como humanos – a capoeira, as rodas de samba, o terreiro, o congado, as folias de reis, os rituais, o carnaval. Dessas ausências nascem dores, dores que questionam: será que o banzo acaba?

Leonce Raphael Agbodjelou
Crédito: Leonce Raphael Agbodjelou. 

- Alô, Iyá? 

- Ô fia, é sua Iyá, como que cê tem passado?

- Ô Iyá, graças a Oxalá!!! Iyá eu tô te ligando pra não fazer uma besteira, me diga alguma coisa, qualquer coisa Iyá, que me faça acreditar de novo na vida, tudo em mim é oco, nada faz sentido...

- A saudade de casa tá batendo, né filha? Não desespera, segura na mão da vó e vem comigo, a vó vai te levar numa viagem. 

- Mas Iya, cê tá na Bahia e eu tô nas Gerais, como assim uma viagem?

- Respira, concentra no cardíaco e confia na vó, fia. Tem dias que é difícil, mas tem dias que é impossível, né fia? A vó não tá falando do racismo, tá falando da dificuldade de se sentir parte, de pertencer a algum lugar, a vó fala da sensação de vazio... da separação... desse banzo que parece não ter fim...  a vó tá falano de Identidade! E não é só com você, fiotinha, nossa gente se sente há um oceano de casa. 

- É tudo isso Iyá, esse vazio me sufoca e eu só quero fugir, mas pra onde, deus meu? 

- Fecha os olhos, e sente, fia, só sente.... a dança circular, o saiote rodando, o pé descalço no chão, o tambor vibrando dentro de você, compassado às batidas do cardíaco, o cheiro da nossa gente, o suor da nossa gente, o riso fácil... E o sol se acendendo dentro de você. Você sabe quem é quando tá girando. Você sabe quem é quando seu corpo não obedece a regras caducas. E agora, ele está possuído pelo transe. Você se sente inteira de novo, agora você tá no fluxo da vida. Você tá na Unidade – terra, fogo, água, ar, éter – você é o sonho mais bonito já sonhado pelos seus ancestrais.  

Agora a fia vai acordar do transe, mas não vai esquecer que esse lugar de aconchego, de acolhida e afeto sempre tá à disposição pra fia. Esse lugar é a África que nas Américas vive através das ervas, da capoeira, da oralidade, das rodas de samba, dos terreiros, dos quilombos, dos rituais, da circularidade. A fia também não pode esquecer que o futuro mora no passado! 

Sheila Santos

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Coluna Preta

Sheila Santos é Mulher cis, preta, LGBTQIA+, paulistana, amante de samba e dos morros montanhosos de Minas Gerais. É Socióloga, Historiadora, Mestra em História e Doutoranda em História, e por tudo isso, acredita que contar histórias é uma forma de adiar o fim do mundo. Atua como Professora e como agitadora cultural em Diamantina (MG), é idealizadora do Fanzine “A voz (des)viada do Vale do Jequitinhonha” e do livro oriundo de sua dissertação de Mestrado, intitulado:"Quem não eco, nem sabe que já deixou de existir - A experiência contracolonialista do Quilombo Carrapatos da Tabatinga".

Comentários


  • 28-04-2021 17:32:45 Ana

    A sua escrita fascina e me transporta! A sua coluna é muito boa, parabéns.