Coluna

MARCELINHO, 57 ANOS DE O GLOBO

Rio - “Uma imagem vale mais que mil palavras.” 

A frase é de autoria do filósofo chinês Confúcio, mas, certamente, foi pensada por Roberto Marinho, em abril de 1962, quando contratou Marcelo Monteiro para ilustrar as páginas de “O Globo”.

Marcelo nasceu na rua Mayrink Veiga, no centro do Rio de Janeiro, na semana do carnaval de 1935. É filho do pintor, cenógrafo, arquiteto, carnavalesco e ilustrador Monteiro Filho. 

Teve seu primeiro trabalho - um desenho da poetisa Gabriela Mistral - publicado no jornal “Imprensa Popular”, do Partido Comunista Brasileiro, dirigido pelo jornalista e escritor Oduvaldo Vianna, amigo de seu pai.  

Marcelo fez de tudo: ilustração, cenografia, publicidade, histórias em quadrinhos e desenho de produção para o cinema, antes de, ainda jovem, ir trabalhar na Editora Ozon. Lá ele conheceu Paulo Rodrigues, irmão do escritor Nelson Rodrigues. Paulo ia lançar um livro pela editora e chamou o garoto para fazer a capa.

Paulo Rodrigues trabalhava no “O Globo” onde mantinha uma coluna diária chamada “Se A Cidade Contasse” e precisava de um ilustrador. Impressionado com o trabalho do rapaz, convidou-o para ilustrar uma das historinhas que sairiam no dia seguinte. 

Paulo levou a ilustração para o jornal, e uma hora depois  ligou, dizendo que o Dr. Roberto Marinho queria contratá-lo. 

Marcelo tinha 27 anos quando entrou na redação do “O Globo” pela primeira vez.  Dr Roberto olhou para o rapaz e, sem sequer combinar horário ou salário, disse: “Você pode começar hoje?”.

Nascia, ali, um dos mais brilhantes e admirados ilustradores do país. 

O artista foi responsável por traduzir em imagens os textos do próprio Paulo, de João Saldanha, João Ubaldo, Luis Fernando Verissimo, Zuenir Ventura, Roberto DaMatta, Paulo Coelho, Luiz Garcia, Alberto Goldin, B. Piropo e Martha Medeiros, entre outros que passaram redação da Irineu Marinho.  

Marcelo está há 57 anos no “O Globo”. É o mais antigo funcionário.  Passou por praticamente todas as vertentes de sua arte: charges, cartuns, ilustrações para crônicas, artigos e reportagens. Mas Marcelo Monteiro não se considera um cartunista. “Sempre fui ilustrador, meu trabalho está sempre ligado a um texto. É uma criação paralela, nunca independente, por mais tênue que seja o linha entre trabalho gráfico e texto”- diz.

Foi o mais importante ilustrador de Nelson Rodrigues. Pelos traços de Marcelinho, personagens célebres do autor ganharam corpo. Marcelo deu forma gráfica a vários dos inesquecíveis personagens de Nelson Rodrigues, entre eles, o Sobrenatural de Almeida, A Cabra Vadia, Gravatinha e A Grã-fina das Narinas de Cadáver. 

Apesar de ilustrar as colunas dos maiores cronistas brasileiros, nenhum interferiu no seu trabalho. Tinha autonomia para exercer sua arte. Era amado, admirado e respeitado por toda a redação que o tratava carinhosamente de Marcelinho. 

No entanto, uma vez, João Saldanha o alertou que a posição de um boneco que ia chutar a bola estava errada. Marcelo era bom no que fazia, mas o João Danado entendia muito de futebol. 

Corrigiu na hora.

Por outro lado, era comum ver autores como Nelson Rodrigues pedindo opinião para Marcelo sobre seus textos. Um dia Marcelo estava ao lado do Nelson esperando ele acabar de escrever uma de suas crônicas, quando ele perguntou: “Ô, ridículo! (maneira carinhosa que usava para brincar com os mais íntimos). O que é que acha disso?” Monteiro pegou o texto e leu: “Não se dá um passo em Álvaro Chaves sem tropeçar numa glória.” Respondeu: “Genial. É a definição lapidar de um tricolor.” Escritor e ilustrador eram afinados.

Em 1978, Monteiro foi convidado a mudar o visual do bonequinho, criado pelo ilustrador Luiz Sá, em 1938, a pedido de Rogério Marinho, para ilustrar a seção “O bonequinho viu”, de críticas de cinema do jornal, dando a ele formas mais modernas. Seu desenho é utilizado até hoje, 41 anos depois.

Ainda hoje, aos 84 anos, Marcelinho atravessa todos os dias, com passos lentos e delicados, a redação e senta na prancheta que lhe deu fama e prestígio. 

Feliz.

Ediel Ribeiro (RJ)

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Coluna do Ediel

Ediel Ribeiro é carioca. Jornalista, cartunista e escritor. Co-autor (junto com Sheila Ferreira) do romance "Sonhos são Azuis". É colunista dos jornais O Dia (RJ) e O Folha de Minas (MG). Autor da tira de humor ácido "Patty & Fatty" publicadas nos jornais "Expresso" (RJ) e "O Municipal" (RJ) e Editor dos jornais de humor "Cartoon" e "Hic!". O autor mora atualmente no Rio de Janeiro, entre um bar e outro.

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