19,Jun
Coluna

AMAR, MÚLTIPLO DE X

Quantas vezes é possível amar? Digamos que uma vez amei Maria, e Maria me deixou, depois amei Joana, que, dessa vez, eu deixei, e por tantas vezes amei e fui amado e deixei e fui deixado. Então é possível que amando tantas vezes, também seja possível amar muitas vezes, e ao mesmo tempo, tantas Joanas e Marias que apareçam. E multiplicamos nossos amores e marcamos na memória, como o pistoleiro que marca sua arma, para cada presa abatida.

Certo. Digamos que uma amiga ou amigo é tão amigo e amiga que a amizade por tantas vezes multiplicada seja quase amor, confeitada com muita simpatia, com o devido espaço entre corpos. Podemos separar amor de amizade? Possivelmente, desde que não queiramos transformar amizade em amor, onde amor se transformar em amizade... aí, talvez, a coisa se complique e, em vez de multiplicar, divida.

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Podemos estar com alguém e amar outras ou outros, pelos detalhes que nos falte ver na pessoa amada da vez. Uma forma de falar, compreender, ouvir, sorrir, acariciar e tantas qualidades faltam na pessoa que amamos e conseguimos ver, ou imaginar, que existam em outros ou outras tantas.

Ficamos com as nossas amadas e amados até que a morte ou um problema bem grave nos separe, e abrimos nosso coração de imediato para os outros amores para os quais lançamos pensamentos e olhares.

Depois da tempestade vem a bonança, ou depois de um fora bem-dado, nosso coração se abre para outros lados com esperança. Já disse Hegel que o segundo casamento, ou relacionamento, é a vitória da esperança sobre a realidade. Sempre acreditamos que o amor mora ao lado, ou na primeira troca de olhar no passear descontraído pelas calçadas. Uma troca de sutilezas, de convites para um café e novamente o amor se descabela, e se lança direto sobre o coração dele ou dela.

Podemos, sim, amar vários ou várias, de idades diferentes e variadas. Mas, o que nos leva a permanecer ao lado daquela que é bonita porque está em nossa companhia, disse Vinícius?

Amores são ganhos, imagina o conquistador barato, e como barato sai caro ele colhe muito mais perdas e danos. Amamos muitas vezes, e ficamos, com certeza, com aquele ou aquela que compreende nossas manias, defeitos e enganos.

Nilson Lattari

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Crônicas e Contos

NILSON LATTARI é carioca e atualmente morando em Juiz de Fora (MG). Escritor e blogueiro no site www.nilsonlattari.com.br, vencedor duas vezes do Prêmio UFF de Literatura (2011 e 2014) e Prêmio Darcy Ribeiro (Ribeirão Preto 2014). Finalista em livro de contos no Prêmio SESC de Literatura 2013 e em romance no Prêmio Rio de Literatura 2016. Menções honrosas em crônicas, contos e poesias. Foi operador financeiro, mas lidar com números não é o mesmo que lidar com palavras. "Ambos levam ao infinito, porém, em veículos diferentes. As palavras, no entanto, são as únicas que podem se valer da imaginação para um universo inexato e sem explicação".

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