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Home Colunas

CAFFÉ, NANQUIM E MÚSICA

Por Ediel Ribeiro
26 de junho de 2023 - 15:15
em Colunas

Divulgação - 

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Rio de Janeiro – Lembro nitidamente a primeira vez que vi uma caricatura do Caffé. Aliás, várias. Era a Seleção Brasileira de 1970.

A arte, publicada no jornal “Gazeta Esportiva”, era muito parecida com o traço do Adail, outro cartunista paulistano que também fazia excelentes caricaturas de jogadores de futebol e cantores do rádio. Caffé, como Adail, era fã do Divito (Guillermo Divito 1914-1969), um cartunista argentino que publicava no semanário “Patoruzú”, de Buenos Aires.

Miécio Caffé Siqueira foi cartunista, caricaturista, pesquisador e um dos maiores colecionadores de MPB – dono de um dos maiores acervos de LPs e discos de 78 rotações do país. O acervo de mais de 10 mil discos foi doado ao MIS – Museu da Imagem e do Som de São Paulo.

Ainda muito jovem veio para o Rio de Janeiro estudar desenho na Escola Nacional de Belas Artes, mas foi aconselhado por um professor a sair da escola pois nada teria a aprender ali. A partir daí, com a mesada que recebia do pai, comerciante e coronel do Nordeste, passou a frequentar os bares e boates do Rio de Janeiro tornando-se um inveterado boêmio.

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Em 1943, serviu no 3º Batalhão de Engenharia no Rio Grande do Sul,  onde desenhava instruções de guerra e histórias em quadrinhos para os soldados analfabetos.  Saiu do Exército logo depois da guerra. Em seguida, trabalhou na Viação Férrea do Rio Grande do Sul, na seção de Gráfica. 

Em 1945, Miécio, que na época assinava “De Siqueira”, fez uma história em quadrinhos, intitulada “Fu Manchu”, completamente inédita. Estas páginas foram compiladas pela esposa Hedi, e depois encadernadas. Era uma HQ policial, com uma mistura de Alex Raymond (de Agente Secreto X-9 e Flash Gordon) com Chester Gould (de Dick Tracy).

Em 1947, mudou-se para São Paulo onde começou a trabalhar na revista “Radar”, cujo editor era Ênio Silveira. Depois, passou a fazer capas de livros para a editora Civilização Brasileira. Trabalhou também nos tablóides “O Riso”, “Marmita”, “Conselheiro”, “Governador”, “Seleções Humorísticas” e “A Careta”, onde atingiu o sucesso e a fama. 

Marca registrada de suas obras, sua assinatura bastante peculiar (uma xícara de café, “com um ‘fê’ a mais e um acento aguado”- como ele mesmo dizia) aparecia frequentemente ao lado das caricaturas dos presidentes Dutra, Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, e Jânio Quadros, entre outros.

Em 1958, passou a trabalhar na “Gazeta Esportiva”, onde desenhava a página de rádio, que na ocasião era dirigida pelo compositor Denis Brian, numa seção intitulada “PR Caricatura”, imitando um prefixo de Rádio. 

Grande apreciador de música, era possuidor de um violão – embora nunca tenha aprendido a tocá-lo – que tinha de um lado a assinatura de João Gilberto e do outro, a assinatura de Lúcio Alves. Foi amigo de músicos como Francisco Alves, Orlando Silva, Lupicínio Rodrigues, Carmen Miranda, Aracy de Almeida, Maysa e Elis Regina, muitos dos quais caricaturou. 

Quando se transferiu para São Paulo, Miécio Caffé foi morar com Hedi num apartamento localizado na zona central da capital, na Rua Vitória, esquina da Av. Rio Branco, local conhecido como Boca do Lixo. Nesse apartamento, onde morou por quase 50 anos, vivia de forma modesta e metódica. Todos os dias, após levantar-se, tomar banho e café, sentava-se na prancheta onde trabalhava o dia inteiro – de pijama e chinelo -, às vezes, varava as noites, trabalhava ao som de música clássica.  

Em uma entrevista ao ‘Estadão’ declarou: “Eu nunca fiz nada além de desenhar e ouvir música. Até meus discos, que comprava era a Hedi. Ela comprava, limpava com todo cuidado, fazia ficha, tudo”. 

No apartamento da Boca do Lixo, entupido de discos, Caffé recebia constantemente a visita de João Gilberto, Maysa, Lúcio Alves, Aracy de Almeida, Ciro Monteiro, Isaura Garcia, Adoniran Barbosa, Sylvio Caldas, Emilinha Borba e Francisco Alves. Nessas reuniões, registrou com a mulher, Hedi, cerca de 700 horas de gravações com depoimentos desses artistas, que juntamente com seus cerca de 10 mil discos formaram a “Discoteca do Caffé”, o maior acervo particular do Brasil, cedido ao MIS.

João Gilberto era fã de Orlando Silva. João admirava a dicção de Orlando a ponto de imitá-lo, no início da carreira. Quando queria ouvir o ídolo, João ia ao apartamento do amigo Caffé, que mantinha no apartamento uma grande coleção de discos de 78 rotações, organizada impecavelmente por sua mulher, entre eles, todos os discos de Orlando Silva. João Gilberto passava as tardes no apartamento do conterrâneo, ouvindo o ídolo.

Seu talento e carisma eram tamanhos, que tornou-se uma quase unanimidade entre os grandes nomes dos quadrinhos e do humor gráfico nacional. Em 1997, foi homenageado no 24° Salão Internacional de Humor de Piracicaba, pelo conjunto da obra. Além de fazer caricaturas, fez também ilustrações e charges para jornais e revistas, além de cenários para a televisão. 

Na Gazeta Esportiva, ele publicava uma página inteira em cores com as caricaturas – feitas a bico de pena – de Eder Jofre, Pelé, Garrincha, Maria Esther Bueno, Ademar Ferreira da Silva e outros ícones do esporte. Aliás, Miécio foi um dos primeiros a caricaturar Edson Arantes do Nascimento, em 1958, quando o Brasil ganhou sua primeira Copa do Mundo, na Suécia.

No cinema e teatro fez cartazes de grandes títulos com Ronald Golias, Ankito, Otelo Zeloni, Zé Vasconcelos entre outros. Na música, Caffé concebeu capas de diversos discos na década de 50 e fez caricaturas de personalidades como Noel Rosa, Lupicínio Rodrigues, Emilinha Borba, Francisco Alves, Orlando Silva, Francisco Alves, Vinícius de Moraes, entre outros.

Em abril de 1989, ele passou ao Museu da Imagem e do Som (MIS) de São Paulo sua coleção, cerca de 10 mil discos de 78 rotações por minuto. Além da coleção de discos, ele também repassou ao MIS 683 horas de depoimentos gravados com músicos de várias épocas, livros sobre MPB e centenas de ilustrações suas.

No final da vida, já com sinais do mal de Alzheimer, levava uma vida muito reclusa, até que atendendo aos insistentes pedidos de Hedi, comprou um apartamento na Praia Grande, onde passavam o fim de semana. Mas a esposa  faleceu logo, não aproveitando muito daqueles dias na praia. Com a morte da esposa, o artista se transferiu para a praia, onde morreu num asilo, no dia 11 de março de 2003, aos 82 anos. Seu corpo foi transferido para São Paulo e enterrado no Cemitério do Tremembé.

Tags: ColunaEdiel Ribeiro
Ediel Ribeiro

Ediel Ribeiro

"Coluna do Ediel" Ediel Ribeiro é carioca. Jornalista, cartunista e escritor. Co-autor (junto com Sheila Ferreira) do romance "Sonhos são Azuis". É colunista dos jornais O Dia (RJ) e O Folha de Minas (MG). Autor da tira de humor ácido "Patty & Fatty" publicadas nos jornais "Expresso" (RJ) e "O Municipal" (RJ) e Editor dos jornais de humor "Cartoon" e "Hic!". O autor mora atualmente no Rio de Janeiro, entre um bar e outro.

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