Coluna

Como éramos felizes antes de nos conhecer!

De repente, essa frase veio à minha cabeça quando pensava coisas sobre a nossa situação no mundo, assistindo às notícias da guerra na Ucrânia, pelos noticiários da TV. E me surpreendi com alguns repórteres europeus e americanos mostrando indignação quanto ao conflito ocorrer na Europa. Afinal, alguns, perplexos, relatavam o que acontecia no mundo civilizado, e que a Europa não seria um lugar qualquer e ele não caberia ali. E a nefasta comparação com o mesmo que sucedeu no Iraque, Afeganistão (bem perto dali, inclusive) e ocorre, constantemente, na África.

Houve um tempo que imaginávamos os outros povos apenas como o excêntrico, o diferente, culturas variadas e os imaginávamos vivendo de acordo com nossas informações parcas acerca dos jogos de poder envolvidos, suas tradições, suas crenças e outras coisas. Podíamos viajar pelo mundo e conhecer outros povos, sendo que aquelas diferenças ficavam na interpretação e no preconceito adquiridos por anos de informações de terceiros.

FELIZ
Foto: Yuyeung Lau en Unsplash - 

O mundo se dividia entre os bons e os maus, os esquisitos e os normais, dependendo da perspectiva de onde se estava. E os líderes de um mundo esquecido brigavam entre si, e a população no exterior, em geral, ignorava o que de fato acontecia. A ignorância nos tornava felizes. Para os brasileiros, por exemplo, o Brasil era a terra onde todos seriam recebidos de braços abertos, um povo acolhedor, amigo e essas coisas. E acreditávamos nisso.

Os tempos mudaram e nós não mudamos, apenas somos o que, realmente, sempre fomos, aqui e em qualquer lugar do mundo. Alguns se revoltam, lutam, vencem ou perdem, porque lutar contra o mais forte, e que têm aliados entre ambiciosos, é lutar uma luta perdida. Olhando os noticiários sobre qualquer coisa no mundo, é mais fácil dizer que tudo é mentira, e teremos uma grande probabilidade de estar certos.

Hoje nos conhecemos, porque os perfis expostos mostram, a todo momento, o que somos. Temos os conservadores que não são conservadores, e não fazem a mínima ideia do que seja isso. Temos os progressistas que “fogem” para o exterior para evitar perseguições e, no final das contas, vão curtir um período na Europa ou não. As informações são falsas, os discursos são falsos e nos perguntamos onde estará a verdade.

A felicidade que sentíamos era sobre o futuro esperado, onde as coisas se resolveriam e, apenas, passávamos por um período claro de turbulência até que as coisas se ajeitassem.

Éramos felizes com essa espera e começamos a nos conhecer de fato.

Dá para ser feliz conhecendo a verdade? Conhecendo a verdade e nos tornando infelizes por que o sonho acaba? 

Nós e o mundo somos um casamento monótono, que não tem coragem para se desfazer. Como um casal que se junta, traça sonhos e se descobre no futuro que é, completamente, incompatível. E os dois deverão viver assim até que a morte os separe, ou leve a ambos, ou sobrevivam praticando traições e vivendo tragédias.

Muitos são saudosistas do passado, como eu mesmo me sinto. Mas a pergunta sempre fica: faríamos diferente ou tentaríamos ser os mesmos, com uma nova estratégia, para impor nossas vontades?

Realmente, não dá para ser feliz quando os parceiros, realmente, se conhecem.

Nilson Lattari

227 Posts

Crônicas e Contos

NILSON LATTARI é carioca e atualmente morando em Juiz de Fora (MG). Escritor e blogueiro no site www.nilsonlattari.com.br, vencedor duas vezes do Prêmio UFF de Literatura (2011 e 2014) e Prêmio Darcy Ribeiro (Ribeirão Preto 2014). Finalista em livro de contos no Prêmio SESC de Literatura 2013 e em romance no Prêmio Rio de Literatura 2016. Menções honrosas em crônicas, contos e poesias. Foi operador financeiro, mas lidar com números não é o mesmo que lidar com palavras. "Ambos levam ao infinito, porém, em veículos diferentes. As palavras, no entanto, são as únicas que podem se valer da imaginação para um universo inexato e sem explicação".

Comentários