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Home Colunas

TRABALHAR CANSA

Por Ediel Ribeiro
25 de março de 2022 - 19:04
em Colunas

Divulgação - 

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Lançado originalmente em 1936, ‘Trabalhar Cansa’ (Companhia das Letras – 377 páginas) foi o livro de estreia do poeta e escritor, Cesare Pavese (1908-1950), um dos intelectuais italianos mais importantes do século XX. 

Com a obra, que só ganharia forma definitiva sete anos depois, Pavese queria, conscientemente, renovar a poesia de seu tempo. E, para tal, criou uma nova forma de poesia narrativa. 

Uma fórmula poética que dependeu da lógica e de um intrincado raciocínio na qual o todo da coletânea forma uma intrincada série de pequenas narrativas, que se relacionam de alguma maneira. 

Isso tudo sem, no entanto, apelar para as vanguardas dos anos trinta do século XX, época em que o livro foi escrito – e nem ater-se às fórmulas tradicionais.

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Escrito no contexto da Itália fascista, e marcado por forte engajamento social, ‘Trabalhar Cansa’ é um marco de renovação e revitalização da poesia italiana, até então dominada por tendências mais herméticas da “poesia pura”. 

Com um verso mais narrativo, aberto à prosa, Pavese retratou as noites insones das cidades, as figuras de proletários, camponeses, prostitutas, bandidos, bêbados e mendigos vivendo seu drama diário.

Para o leitor, porém  , a leitura não é nada cansativa. Muito pelo contrário, aliás: as historietas presentes nos poemas são bastante suaves, muitas delas chegando até a ser divertidas. 

Não excluem de si, porém, reflexões profundas sobre a vida – em especial a vida das pessoas simples, como operários, lavradores e prostitutas. 

Alguns poderiam ser canções de amor, enquanto outros poderiam ser histórias contadas num bar: sempre há, porém, uma marcação rítmica monótona o suficiente para que se impeça a canção ou a simples narrativa oral.

O livro, uma bela edição bilíngue, que reúne 70 poemas, escritos ao longo de dez anos, acompanha as etapas de constituição da poética pavesiana, desde os versos narrativos – radicalmente objetivos e mesmo antilíricos –, até a melancolia e solidão característicos da sua última fase. 

O livro conta com um posfácio em que o próprio Pavese explicita seu projeto poético durante a época da composição do livro.

A cuidadosa tradução, feita por Maurício Santana Dias, ganhou o terceiro lugar do Prêmio Jabuti.

Separei um poema:

PAISAGEM

As lembranças começam ao fim da tarde
Sob o sopro do vento ao erguer o rosto
E a escutar a cantiga do rio.
A água é a mesma, no escuro, dos anos mortos.

No silêncio do escuro sobe um marulho
Onde escoam-se vozes e risos remotos;
Acompanha o barulho uma cor inútil,
Que é de sol e de margens, de olhares claros.
Um estio de vozes. Retém cada rosto,
Como um fruto maduro, um sabor passado.

Cada olhar que retorna conserva um gosto
De pastagem e coisa curtida ao sol
Numa tarde de praia. E um cheiro de mar.
Esta sombra indecisa é um mar noturno
De tremores e ânsias antigas, que o céu
Roça e à noite regressa. Estas vozes mortas
Assemelham-se aos golpes daquele mar.

*Livro gentilmente cedido pela editora.
 

Tags: ColunaEdiel Ribeiro
Ediel Ribeiro

Ediel Ribeiro

"Coluna do Ediel" Ediel Ribeiro é carioca. Jornalista, cartunista e escritor. Co-autor (junto com Sheila Ferreira) do romance "Sonhos são Azuis". É colunista dos jornais O Dia (RJ) e O Folha de Minas (MG). Autor da tira de humor ácido "Patty & Fatty" publicadas nos jornais "Expresso" (RJ) e "O Municipal" (RJ) e Editor dos jornais de humor "Cartoon" e "Hic!". O autor mora atualmente no Rio de Janeiro, entre um bar e outro.

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