Coluna

Poesia de Drummond zoneada

papel de pão
Poesias de Drummond em sacos de pão não traduz benefício cultural para Itabira do Mato Dentro. Só empresários lucram. Divulgação - 

- Athaliba, a extravagante apelação de estampar poemas de Carlos Drummond de Andrade em saco de embrulhar pão, já não é zunzum à boca pequena em Itabira do Mato Dentro, além das alterosas de Minas Gerais. Lá, cidade berço do saudoso poeta, parte da população está indignada com o projeto “Pão em Poesia”, idealizado pelos organizadores do Festival Literário Internacional de Itabira - Flitabira -, financiado com dinheiro do Instituto Cultural Vale. Este evento irá acontecer de 27 a 31 de outubro e, como forma de “sedução” ao público, o pão nosso de cada dia será empacotado em sacos com as poesias “Rifoneiro divino”, “Segredo” e “Estampas de Vila Rica”.

- Marineth, ocê não considera genial o projeto de embrulhar pão em papel com poesia? A iniciativa parece bem criativa. A sectária ativista feminina, Miraflores, diria “bão, mar bom mermo”.

- Pois sim, Athaliba. Mas não é o que pensa a transexual Mary Help, que foi taxativa em dizer que “a poesia de Drummond está sendo zoneada”. Encontrei-a em calorosa discussão com as gêmeas lésbicas Francinete e Ivonete, junto ao marco à Bíblia na Praça Acrísio Alvarenga. É lá, invariavelmente, perto da alegoria em concreto da escritura cristã, na conhecida praça redonda - rotatória -, que Mary Help se reúne com sua trupe. Ela e as amigas Shelby, Gina, Lica, Antonina e Mouzalina têm o hábito de debater questões inquietantes que atarracam a sociedade retrógrada daquela cidade.

- Marineth, a poesia de Drummond é “zoneada” em que sentido?

- Óprôcêvê, Athaliba, ela afirmou que o tal projeto - cujas poesias foram escolhidas a dedo pelo neto do poeta, Pedro Drummond - é mercenário, venal, beneficiando alguns empresários que exploram o ramo de padaria. No rol dos estabelecimentos comerciais não estão apenas padarias, inclusive. Vai de papelaria a pastelaria, passando por loja especializada em açaí. As embalagens distribuídas para o clássico pãozinho francês somam 30 mil, nas modalidades de um, três e cinco quilos, respectivamente. Sobre a definição plena de “zoneada”, Mary Help disse que se reservava no direito de silenciar, em respeito e admiração a Drummond, estimado “poeta de alma e ofício” e que teve publicado o livro O amor natural, a pedido dele, após morte.

- Marineth, o Flitabira está agendado para encerramento dia 31/10, data de nascimento do poeta, que completaria 119 anos, neste 2021. A Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade - FCCDA - abriu mão de realizar a Semana Drummondiana, no mês de outubro, em referência ao aniversário do poeta? O evento, realizado desde 1998, tinha a finalidade de fomentar e difundir a busca por novas práticas literárias e artísticas, através de debate, exposição, shows, palestras e outras atividades não tanto qualificadas.

- Athaliba, infelizmente, a política pública de cultura de Itabira do Mato Dentro, obviamente, projetada pelo poder Executivo, sempre teve eixo central como ganhar dinheiro explorando a obra do poeta. Políticos itabiranos consideram que Carlos Drummond de Andrade é uma mina de ouro inexaurível, mais rentável que a exploração de minério de ferro, principal atividade econômica de sustento do município. Ocupa o 6º lugar no ranking dos 853 municípios mineiros em arrecadação. Porém, apesar de deplorável, abominável, detestável a ideia de o poeta ser explorado como fonte de divisa financeira, políticos de Itabira são chinfrins. O predicado deles é a incompetência.

- Marineth, mas, então, a FCCDA não vai realizar a Semana Drummondiana?

- Athaliba, o prefeito de Itabira, detentor de carreira profissional bem sucedida na indústria automobilística, vem demonstrando ser cego na função pública. Ele fez parceria com o Flitabira no sentido de “lavar as mãos”, assim como Pilatos eximiu-se da decisão de salvar Jesus Cristo da forca. Ou seja, Marco Antonio Lage tirou o dele da reta e deixou a memória do poeta a deus-dará, entregue aos abutres de plantão.

- Marineth, que o Flitabira exorcize a inaptidão cultural em Itabira e seja digno de enaltecer a memória de Carlos Drummond de Andrade.

- Athaliba, tô na torcida pelo evento não ser um fiasco, apesar do que apregoam Afonso Borges, idealizador e curador do Flitabira; e Christiana Saldanha, do Instituto Cultural Vale. Assisti ao vídeo da música “Papel de pão”, de Jorge Aragão, desejando que a esperada plateia mundial não se decepcione. E que não se atrevam a desenterrar a proposta leviana de tornar Itabira Capital Nacional da Poesia!!!
 

Lenin Novaes

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Crônicas do Athaliba

LENIN NOVAES jornalista e produtor cultural. É co-autor do livro Cantando para não enlouquecer, biografia da cantora Elza Soares, com José Louzeiro. Criou e promoveu o Concurso Nacional de Poesia para jornalistas, em homenagem ao poeta Carlos Drummond de Andrade. É um dos coordenadores do Festival de Choro do Rio, realizado pelo Museu da Imagem e do Som - MIS

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