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LUZ y SOMBRAS

MULHERES
@maimounaguerresi - 

Desde a primeira vez em que se encontraram, no jardim da Pré Escola que Hadassa e Magnólia são melhores amigas. Hoje, aos 21 anos de idade, e ainda inseparáveis, elas caminham em estradas distintas sem saber que o ponto de chegada é o mesmo.

Em uma rede social, Hadassa se descreve com as seguintes palavras: Sou um ser espiritual vivendo uma experiência na matéria, polarizo com o fim de evoluir, guiada pelo poder da água universal, criando portais atemporais de consciência. O amor é a fábrica do Universo!

Na mesma rede social, Magnólia se descreve assim: Mulher Cis Preta, LGBTQIA+, Feminista, Vegana, Anticapitalista, Anticolonialista, Antiespecista, Não Monogâmica, Ela/Dela. #EleNão, #ForaGenocida, #MachistasNãoPassarão #VivaoSUS, #VivaACiência.

Como é de se esperar, essa amizade sempre foi envolta de discussões inflamadas, de tal modo que ninguém entende como elas ainda são melhores amigas. Um desses diálogos, registrados nesta rede social, bateu 15k curtidas, a temática causadora de tamanho alvoroço foi “como desmantelar o racismo estrutural em 3 passos.” Transcrevo abaixo o principal comentário das duas jovens: 

HADASSA: É você preto, é você preta, quem sintoniza todo e qualquer acontecimento em sua vida. Por isso defendo que o fim do racismo estrutural depende de três passos:  Passo 1: a libertação da escravidão física / Passo 2: a libertação da escravidão mental / Passo 3: A libertação da escravidão espiritual. Resumindo, a questão é o que nós escolhemos receber, por isso, pretinhos e pretinhas, abram espaço para receber toda a luz que está disponível para vocês, porque quando não existe um receptor ativo, o emissor perde forças até se extinguir! Axé. 

MAGNÓLIA: O racismo estrutural é um problema branco e só vai acabar quando a branquitude reconhecer que esse problema é seu. Esse é o primeiro passo. O segundo passo acontece quando a branquitude tomar coragem pra sair da culpa branca, lugar cômodo onde se acostumaram a pedir aplausos após darem moedas para o moleque preto no semáforo. E o terceiro passo vem com a Reparação histórica / social / cultural / política / econômica / artística / linguística / psíquica / emocional / espiritual / religiosa / intelectual / ambiental de todas as pessoas pretas desse país que sofreram e sofrem violências múltiplas, objetivas e subjetivas, decorrentes do racismo estrutural.

Como podemos perceber, Hadassa acredita que o fim do racismo estrutural é uma propositura da/para a própria população preta, enquanto que Magnólia acredita que o racismo estrutural irá é responsabilidade da branquitude. Ambas, porém, defendem que o plano físico é meramente o ponto de impacto da realidade que é mental. Eis o segredo para o sucesso de uma amizade de duas décadas e também o segredo para unir o político e o espiritual.

Sheila Santos

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Coluna Preta

Sheila Santos é Mulher cis, preta, LGBTQIA+, paulistana, amante de samba e dos morros montanhosos de Minas Gerais. É Socióloga, Historiadora, Mestra em História e Doutoranda em História, e por tudo isso, acredita que contar histórias é uma forma de adiar o fim do mundo. Atua como Professora e como agitadora cultural em Diamantina (MG), é idealizadora do Fanzine “A voz (des)viada do Vale do Jequitinhonha” e do livro oriundo de sua dissertação de Mestrado, intitulado:"Quem não eco, nem sabe que já deixou de existir - A experiência contracolonialista do Quilombo Carrapatos da Tabatinga".

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