Coluna

Tecnologia Ancestral

Em tempos de luto coletivo, todos os dias ao nos levantarmos precisamos nos motivar a continuar de pé, porque o apelo de morte vem de todos os lugares. E é especialmente sobre essa motivação para encantar os dias, em tempos de morte, que eu venho aqui hoje, cara leitora e caro leitor, te convidar para essa prosa.
 
Antes de qualquer coisa, como está a sua respiração? Curta? Longa? Acelerada? Lenta? Você sabe respirar com qualidade? Faça o teste, Inspire e Expire. Sinta o ar entrando e te preenchendo por completo na inspiração, e agora sinta o ar saindo, purificando o corpo e trazendo relaxamento na expiração. E o seu coração? Como tem estado o seu coração? Que tal aquietar a mente tagarela e se permitir escuta-lo por alguns segundos? Os batimentos do nosso cardíaco são reveladores, não é à toa que as nossas mais velhas vivem nos dizendo: “ouve seu coração, fia, é ele quem tem as respostas” 

Arte:@nomadcoder

A coluna de hoje traz uma proposta de autocuidado, porque o que esses tempos pandêmicos não cessam de nos ensinar é que os nossos inimigos também são invisíveis. E, mesmo confiando que a solução primordial virá pela ciência, também precisamos lembrar que temos a tecnologia ancestral. 

Toda pessoa preta, africana ou em diáspora sabe o que é, da onde vem e como se manipula essa tecnologia ancestral. Faça você mesmo o exercício, puxe pela memória a história daquela avó, tia-avó, dindinha ou preta véia  que desafiou as estruturas mais asquerosas do Estado através de suas rezas, cânticos, danças, amuletos, banhos, mantras, benzeção e um misto de ervas: comigo-ninguém-pode, arruda, alecrim, espada-de-são-jorge, guiné, manjericão, erva-pimenteira. Mas não para por aí, a tecnologia ancestral também significa se olhar com mais carinho, acolher a sua criança interior, respirar conscientemente, ouvir o seu corpo, deixar vir o choro, pensar com o cardíaco, e assim, nadar no mar de lama sem se identificar com a lama.

Não estou querendo insinuar que vamos vencer o genocídio vigente há 520 anos contra o nosso povo, com “mandingas”. A proposta é de percebermos que hoje, mais do que em qualquer outro tempo histórico, é preciso recuperar os conselhos, adágios, ditos populares e provérbios de nossas mais velhas: “Caranguejo esconde-se para a água passar”. “Se quer saber o final, preste atenção no começo”. “Aquele que não sabe dançar irá dizer, a batida dos tambores está ruim”. Essas mulheres que através da oralidade, do mato sagrado e da imposição das mãos, fabricam o equilíbrio para todas as formas de vida, beneficiando toda a humanidade. 

 

Sheila Santos

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Coluna Preta

Sheila Santos é Mulher cis, preta, LGBTQIA+, paulistana, amante de samba e dos morros montanhosos de Minas Gerais. É Socióloga, Historiadora, Mestra em História e Doutoranda em História, e por tudo isso, acredita que contar histórias é uma forma de adiar o fim do mundo. Atua como Professora e como agitadora cultural em Diamantina (MG), é idealizadora do Fanzine “A voz (des)viada do Vale do Jequitinhonha” e do livro oriundo de sua dissertação de Mestrado, intitulado:"Quem não eco, nem sabe que já deixou de existir - A experiência contracolonialista do Quilombo Carrapatos da Tabatinga".

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