05,Jul
Coluna

Tem “rachadinha” em Itabira?

Reunião da Câmara Municipal de Itabira do Mato Dentro na qual o vereador Mercês negou assédio sexual e acusou o presidente Heraldo de praticar rachadinha. (Foto: Câmara de Itabira)

- Athaliba, um dos 17 parlamentares – são todos homens, até prova em contrário - da Câmara de Vereadores de Itabira do Mato Dentro, microfone em punho e cotovelos apoiados no púlpito, com veemência, se defendeu da acusação de ter apalpado a bunda de uma barnabé e, impetuosamente, acusou um colega de praticar “rachadinha”. No plenário esvaziado - isso não só em função da pandemia do COVID-19, mas, sim, da aversão que a população de Itabira tem em não frequentar a Casa do Povo -, nenhuma reação de espanto, assombro. Apenas entre eles próprios, os vereadores, os olhares se cruzaram. Também sem causar qualquer acanhamento.

- Marineth, infelizmente, esse crime da “rachadinha” é uma praga danada que pode se dá em muitas das mais de 5.570 Câmaras de Vereadores no país. No caso de Itabira, recentemente, dois vereadores foram cassados por praticar a “rachadinha”. São eles Weverton Júlio de Freitas, apelidado de Nenzinho; e Agnaldo Vieira Gomes, vulgo Enfermeiro. E, como toda a população brasileira vem acompanhando na mídia, aconteceu na ALERJ - Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro -, com o hoje senador Flávio Balsonaro, à época deputado estadual, acusado de embolsar parte dos salários dos funcionários do gabinete dele.

- Athaliba, no caso de Itabira, na sessão de 23/6, o vereador Reginaldo das Mercês Santos dedurou o parlamentar Heraldo Noronha e pediu a renúncia dele da presidência da Câmara de Vereadores. Alegando que fora massacrado por suposto crime de assedio sexual, ano passado, Mercês Santos evidenciou ter engolido a advertência imposta pela Comissão de Ética do parlamento. Afinal, o episódio foi captado por câmeras internas e teve testemunho irrefutável de servidora que o viu apalpando a bunda da barnabé.

- Marineth, além de pratica da “rachadinha”, parlamentares de Itabira do Mato Dentro são “donos” de cargos na estrutura da máquina administrativa, preenchendo lacunas essenciais por falta de concursos públicos. Loteiam os órgãos públicos em “balcão de negócios”, principalmente nos setores culturais e áreas administrativas. E a Prefeitura de Itabira do Mato Dentro se compõe em gigantesco “cabide de empregos”. O município ocupa o 6º lugar no ranking de arrecadação, entre os 853 municípios de Minas Gerais, devido à exploração do minério de Ferro. Mas, apesar disso, a população itabirana sofre com a ineficiência na educação, habitação, saúde, iluminação pública e saneamento básico, entre outros itens essenciais à qualidade de vida.

O plenário da Câmara de Vereadores de Itabira é sempre esvaziado, por descrédito nos parlamentares. (Foto: Câmara de Itabira)

- Athaliba, a atuação dos vereadores de Itabira do Mato Dentro deixa a desejar. O Projeto de Resolução 11/2019 que sugeria a alteração do Regimento Interno para redução de 17 para 11 parlamentares foi rechaçado a “toque de caixa” por eles. O vereador André Viana, por exemplo, tem dupla função, exercendo a presidência do Sindicato Metabase de Itabira. Ele sucedeu o colega parlamentar Paulo Soares, na mesma prática imoral e ambígua. Tanto André Viana quanto Paulo Soares são considerados sindicalistas pelegos por adversários, pois defendem o assistencialismo na concepção do “sindicalismo de resultado”. Não lutam por qualificar os trabalhadores.

- Marineth, afinal, como o parlamentar e presidente da Câmara de Vereadores, Heraldo Noronha, reagiu à acusação de praticar “rachadinha” e encobrir maracutaias?

- Athaliba, o Mercês Santos, como prova da acusação, projetou no telão do plenário o que ele classificou como depósitos comprobatórios feitos por funcionários na conta bancária do Noronha, que já é investigado pelo Ministério Público. Pediu o afastamento dele da presidência da Câmara de Vereadores à Comissão de Ética para que possa se defender das acusações. O Noronha repeliu a acusação, dizendo-se vítima de perseguição por ter cortado despesas e exonerado “servidores comissionados”.

- Será mesmo, Marineth?

- Vai saber, Athaliba. Noronha alegou que abriu uma “caixinha” na conta bancária dele que foi pedida pelos servidores para juntar dinheiro e realizar festa de confraternização no fim do ano. E que o Mercês não se conformou com a advertência da Comissão de Ética por ter pegado na bunda da servidora.

- Bem, Marineth, acompanhemos o desenrolar desse nefasto episódio que escancara a conta gota os podres na Câmara de Vereadores de Itabira, cidade berço do nosso saudoso poeta Carlos Drummond de Andrade. Faço votos para que as eleições vindouras depurem as mazelas e que as mulheres possam definitivamente estar representadas na Casa do Povo. Tomara!!!

Lenin Novaes

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Crônicas do Athaliba

LENIN NOVAES jornalista e produtor cultural. É co-autor do livro Cantando para não enlouquecer, biografia da cantora Elza Soares, com José Louzeiro. Criou e promoveu o Concurso Nacional de Poesia para jornalistas, em homenagem ao poeta Carlos Drummond de Andrade. É um dos coordenadores do Festival de Choro do Rio, realizado pelo Museu da Imagem e do Som - MIS

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