10,Jul
Coluna

Tattoo é amor ou paixão?

- Athaliba, ocê dá autorização para fazer tatuagem com o seu nome no cóccix (coccidínia), bem no centro da parte que divide as nádegas? Vai ficar linda. Fiquei maravilhada com a que a Gracyanne fez usando o nome do Belo, seu namorado, e que realça a marquinha do biquíni fio dental quando fica nua. Ela postou imagem da tatuagem na rede social e lhe rendeu milhares de curtidas e comentários elogiosos. Sua imagem, capturada por paparazzi, é explorada a rodo pela mídia sensacionalista.

- Que beleeeeeeeeeeeeeeeeeza, Marineth. Quer me tornar proprietário do teu bumbum?

Gracyanne  Barbosa
Gracyanne exibe tatuagem com o nome do namorado Belo no cóccix, realçando a marca do biquini fio dental. (Reprodução do Instagram)

- Athaliba, não exagera. Desejo somente homenagear o meu inseparável amigo. Quero te perpetuar, eternizar no meu corpo. Sabe, como a música “Tatuagem”, do nosso querido Chico.

- Marineth, saiba que fico lisonjeado com a sua intenção. Mas, amiga, isso pode te causar alguns problemas lá na frente. Imagine quando estiver fazendo sexo e o seu parceiro questioná-la sobre a origem da tatuagem na bunda. Será que ele acreditará na história que contar? Entenderá que tattoo pode significar amor ou paixão? O assunto me faz lembrar o premeditado e brutal assassinato da atriz filha da novelista Glória Perez.

- Que história é essa, Athaliba?

- É bem macabra, Marineth. Guilherme de Pádua, ator, de 23 anos, e Paula Thomaz, de 19 anos, na ocasião, fizeram pacto de amor eterno. Ele tatuou no pênis o nome da mulher e, ela, por sua vez, tatuou no nome dele na virilha, pertinho dos grandes lábios da vagina. Isso alguns dias antes de matar a jovem artista Daniela Perez, que tinha 22 anos, com golpes de tesoura que lhe atingiram o coração, pescoço e o pulmão. O assassinato causou comoção no Brasil e no exterior.

- Athaliba, mas que caso tão absurdo. Quando e onde isso aconteceu?

- Marineth, o crime aconteceu há 27 anos, dia 28 de dezembro de 1992, num terreno baldio da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. A atriz interpretava Yasmim na novela De corpo e alma, escrita pela mãe dela, e fazia par romântico com Pádua, intérprete do personagem Bira. A novela foi exibida pela TV Globo, de 3 de agosto de 1992 a 5 de março de 1993, e teve as participações de Tarcísio Meira, Beatriz Segall, Fábio Assunção, Cristiana Oliveira, Victor Fassano, Carlos Vereza, Betty Faria e Vera Holtz, entre outros.

- Qual a motivação do crime, Athaliba?

- No dia do crime, Marineth, o casal gravou cena na qual ela dava um fora nele. Logo após a gravação, o ator entrou em crise e esmurrou o que via pela frente, no estúdio. Apurou- se que ele procurou pela atriz e não foi atendido por ela. Alguns atores disseram à época que Guilherme assediava Daniela, pressionando-a a exigir da mãe para ter mais destaque na trama. Ao contrário disso, no roteiro dos episódios seguintes, seu papel ficava menor. Aí, Marineth, o ator pegou a mulher Paula, grávida de quatro meses, em Copacabana, e no automóvel Santana, com placa adulterada, seguiu a atriz, que dirigia seu carro Escort XR3. O ator agrediu Daniela, após ela abastecer o carro num posto de combustível, Frentistas assistiram a agressão. A atriz, desacordada, foi colocada no banco traseiro do Santana, dirigido por Paula, e Guilherme assumiu a direção do outro carro. Num terreno baldio da Rua Cândido Portinari o casal praticou o bárbaro crime.

- Athaliba, o crime demorou a ser esclarecido?

- Não, Marineth. Um advogado anotou as placas dos carros, por suspeitar tratar-se de assalto, e informou a polícia, que chegou ao local e achou o carro da atriz. O ator Raul Gazolla, marido de Daniela, reconheceu o corpo. Guilherme retornou ao local do crime e, ainda naquela noite, foi à delegacia com familiares da atriz. Através da placa do carro (Guilherme tinha alterado de LM 1115 para OM 1115), o ator já era suspeito e Paula foi reconhecida pelo advogado. Depois disso, cada um procurou jogar a culpa do crime no outro, nos interrogatórios.

O casal foi condenado. Guilherme pegou 19 anos de prisão e Paula recebeu pena de 18 anos e seis meses de reclusão. O filho dela, Felipe, nasceu na prisão, em maio de 1993. Mas, o casal deixou a cadeia antes de completar sete anos da condenação, em 1999, em razão da lei que garante liberdade condicional para presos com bom comportamento, após um terço de a sentença ter sido cumprida.

- É, Athaliba, o caso realmente abalou o Brasil e deve estar na memória de muita gente.

- Sim, Marineth. O crime levou Glória Perez a lutar pela inclusão do crime de homicídio qualificado na Lei dos Crimes Hediondos, conseguindo reunir 1,3 milhão de assinaturas. Mas, Guilherme e Paula não foram afetados pela mudança. O ator se tornou evangélico e casou com uma mulher da mesma igreja, em BH. Ele gravou, nas eleições majoritárias do no passado, vídeo de apoio ao mito pés de barro, o atual Presidente da República do Brasil. Paula, por sua vez, também se casou novamente e teve mais um filho.

- Athaliba, será que Guilherme conseguiu apagar a tattoo no pênis com o nome da mulher; e Paula extinguiu a tatuagem do nome dele na virilha? Sabe, após saber desse pacto de amor eterno entre psicopatas, desisto da tatuagem com o teu nome no meu cóccix, igual aquela com o nome do Belo. Vou é te carregar pelo resto da vida no meu coração, inseparável amigo.

- Sei não Marineth, nem quero saber. A novelista, ao assistir entrevista do assassino da filha, anos depois, muito indignada, postou foto de Daniela morta e escreveu que “esse FDP, porque estava sendo reduzido na novela, vingou-se: emboscou Daniela, desacordou com um soco, deu 18 estocadas e foi abraçar nossa família”.

Vamos ouvir “Tatuagem” que, na opinião de uma das fãs do Chico Buarque, “é a canção mais desesperada, sensual e ‘crua’ de um dos mais importantes autores da MPB”. 

 

“Quero ficar no teu corpo
Feito tatuagem
Que é pra te dar coragem
Prá seguir viagem
Quando a noite vem...
E também pra me perpetuar
Em tua escrava
Que você pega, esfrega
Nega, mas não lava...
Quero brincar no teu corpo
Feito bailarina
Que logo se alucina
Salta e te ilumina
Quando a noite vem...
E nos músculos exaustos
Do teu braço
Repousar frouxa, murcha,
Farta, morta de cansaço...
Quero pesar feito cruz
Nas tuas costas
Que te retalha em postas
Mas no fundo gostas
Quando a noite vem...
Quero ser a cicatriz
Risonha e corrosiva
Marcada a frio
Ferro e fogo
Em carne viva...
Corações de mãe, arpões,
Sereias e serpentes
Que te rabiscam
O corpo todo
Mas não sentes”

Lenin Novaes

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Crônicas do Athaliba

LENIN NOVAES jornalista e produtor cultural. É co-autor do livro Cantando para não enlouquecer, biografia da cantora Elza Soares, com José Louzeiro. Criou e promoveu o Concurso Nacional de Poesia para jornalistas, em homenagem ao poeta Carlos Drummond de Andrade. É um dos coordenadores do Festival de Choro do Rio, realizado pelo Museu da Imagem e do Som - MIS

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