17,Jan
Coluna

LUA

Lua cheia
Imagem: Robert Karkowski/Pixabay 

Por certo a lua quando viaja pelo firmamento escuro, retirando o olhar luminoso das estrelas mais longínquas, e o seu brilho prateado invade as janelas, fico imaginando aqui comigo, que os apaixonados quando se olharam nela, durante todos esses séculos, deram a ela, emprestado, os brilhos dos seus olhos enamorados.

Se dois seres distantes resolvem combinar de olhar a lua ao mesmo tempo, conseguem conceber, por um momento, que seu encontro está no que há de mais distante, apesar de estarem pensando, separadamente, e desejando, um do outro, estarem perto.

A lua tem um sentido de encontro, e se fosse um espelho no céu, por certo teria nele refletido muitos rostos, desde os amantes até os solitários. A lua parece ser o depósito de sonhos e de desejos, uma bola de adivinhação que paira no espaço, e muitas vezes míngua, outras vezes cresce, algumas vezes é inteira, em outros momentos desaparece.

Algumas vezes as nuvens a escondem, e a noite escura toma conta de tudo, mas a força dela é tão grande, que mesmo assim os enamorados, poetas, solitários e noturnos caminhantes podem percebê-la flutuando ali, bem perto.

Foram anos de sucessivas tentativas até poder ser alcançada, e um pé foi deixado na sua fina camada de solo, não tão surpreendentemente branco, ninguém a habitando ou usufruindo dela. Uma grande lâmpada acesa na noite, a acompanhar os bêbados, os meliantes, os amantes que dela se escondem nas sombras, e somente os seus olhares dirigidos para ela são os únicos a denunciar seu olhar vigilante.

Quanta fantasia em torno do astro, que indiferente cumpre seu ritual noturno. O bêbado conversa com ela, sentado na calçada, a olhar para o alto em busca da companhia prateada que levemente oscila.

Leva na viagem as marcas das máquinas que lá chegaram, em busca de aventuras. Desfazendo as imagens tolas, as inspirações poéticas que fizeram dela o depositário de imaginações. A lua e o sol, dois amantes a se perseguirem no espaço. 

Lua, lua, lua quantas vezes você passou por aqui e quantas confidências eu te fiz, e você levou, no guardado do espaço, bem longe de mim.

Nilson Lattari

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Crônicas e Contos

NILSON LATTARI é carioca e atualmente morando em Juiz de Fora (MG). Escritor e blogueiro no site www.nilsonlattari.com.br, vencedor duas vezes do Prêmio UFF de Literatura (2011 e 2014) e Prêmio Darcy Ribeiro (Ribeirão Preto 2014). Finalista em livro de contos no Prêmio SESC de Literatura 2013 e em romance no Prêmio Rio de Literatura 2016. Menções honrosas em crônicas, contos e poesias. Foi operador financeiro, mas lidar com números não é o mesmo que lidar com palavras. "Ambos levam ao infinito, porém, em veículos diferentes. As palavras, no entanto, são as únicas que podem se valer da imaginação para um universo inexato e sem explicação".

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