Coluna

OS OLHARES DE CADA UM

Luba Ertel / Unsplash - 

Juiz de Fora (MG) - Um homem diante do mar vê apenas um horizonte longínquo e uma quantidade enorme de água. Tudo se torna incompreensível porque o homem diante do universo não tem nenhuma ideia da sua dimensão, e se perde nele, entregando à imaginação a conclusão do seu pensamento. Ele se entrega a pensar como tudo aquilo é possível porque, diante do universo, tudo se torna mais complexo. Mesmo considerando a sua pequenez na frente da imensidão, ele ainda se julga capaz de conquistá-la, acreditando na mágica da sua tecnologia.

Ainda assim, há grandiosidade no seu pensamento. Se sentir desafiado perante o desconhecido. A imaginação viaja e constrói mundos inexistentes, imagina povos estranhos e inúmeras possibilidades de conseguir conhecê-los, mesmo sabendo que poderá perder a vida nessa busca.

Um tolo, no entanto, consegue erguer o seu dedo  para o céu e não ver nada mais do que o seu dedo a sua frente. Um tolo enxerga a si mesmo e não tem a menor ideia do que poderia fazer com aquilo que vê além dele mesmo. É assim quando ele se depara com o desconhecido e se entrega à única coisa que sabe fazer: falar de si mesmo. E vê assim as coisas porque não tem a menor vontade de arriscar-se pelo desconhecido. E por isso nada busca porque é risco. Um tolo se guarda para si e se entrega às próprias elucubrações de seus instintos. Um tolo diante do mar procura barcos, como se a coisa mais importante da vida fosse enxergar o óbvio diante de tanta vida escondida em suas entranhas.

Quando um sábio olha o universo, entende a sua dimensão de tal maneira que sabe que não poderá entendê-lo e, portanto, não abarca tudo aquilo para si. Um sábio caminha devagar pelo desconhecido para reconhecer em cada passo um mundo inteiro para ser descoberto. Um sábio procura entender o mais além. E para entendê-lo ele precisa conhecer cada etapa daquilo que compõe o universo. Diante do mar ele enxerga a vida que pode estar nele e cada elemento vital para a sua existência.

Ambos podem enxergar o todo e o nada. São olhares distintos diante da mesma forma.

Assim somos cada um de nós diante dos obstáculos que temos pela frente. Podemos enxergá-los como meros objetos, mesmo grandiosos, que podem não ser ultrapassados, ser subestimados, mas as suas existências pressupõem que ao tentar conhecê-los poderemos conhecer mais cada um de nós. 

Se somos tolos o suficiente, vamos fingir ignorá-los e procurar entender ou nos convencer que não existe nenhuma importância em superá-los. E para entendê-los os refazemos de acordo com nossa vontade. O tolo despreza o que não compreende porque não compreende a importância do desafio. O tolo não estuda o que está na sua frente. A ignorância é o obstáculo, é o seu dedo apontado para si mesmo.

Se somos sábios, percebemos que é nos detalhes da vida onde o segredo da caminhada se concentra. Quando o sábio caminha ele olha no horizonte o final da sua jornada e evita as pedras no caminho que podem derrubá-lo. O sábio também olha para si mesmo, antes de se deslumbrar com o horizonte. 
 

Nilson Lattari

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Crônicas e Contos

NILSON LATTARI é carioca e atualmente morando em Juiz de Fora (MG). Escritor e blogueiro no site www.nilsonlattari.com.br, vencedor duas vezes do Prêmio UFF de Literatura (2011 e 2014) e Prêmio Darcy Ribeiro (Ribeirão Preto 2014). Finalista em livro de contos no Prêmio SESC de Literatura 2013 e em romance no Prêmio Rio de Literatura 2016. Menções honrosas em crônicas, contos e poesias. Foi operador financeiro, mas lidar com números não é o mesmo que lidar com palavras. "Ambos levam ao infinito, porém, em veículos diferentes. As palavras, no entanto, são as únicas que podem se valer da imaginação para um universo inexato e sem explicação".

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