Coluna

EU, GUERREIRA?

Entra ano, sai ano, e temos a impressão de que não avançamos nas pautas raciais no contexto brasileiro. A impressão é de que a cada geração a roda precisa ser inventada, parece não ser possível pegar a roda do ponto em que os nossos mais velhos deixaram e fazê-la girar.

Esse eterno retorno é o nosso principal calcanhar de aquiles, pois, tivesse nossas vozes alguma resolutividade, essa coluna poderia hoje contar histórias de sucesso de pretas e pretos que criaram tecnologias inovadoras, a cura pro conoravírus, ou modos de acabar com a fome no mundo, e não mais de histórias atravessadas em alguma medida pelo racismo. Mas ainda estamos aqui gritando "fora racistas".

A crítica à representação estereotipada de mulheres negras no Brasil, é uma dessas rodas que precisamos inventar todos os dias. As novelas e filmes do início deste século são os melhores lugares de observação. As personagens negras são sempre sedutoras/sexualizadas, ou faveladas/barraqueiras ou a revoltada/militante ou a doméstica/subordinada ou a batalhadora/guerreira.

mulher em meio as flores do jardim
Arte: crioullamerce

Um dos problemas disso é que crescemos acreditando que são essas as características naturais do nosso povo.

E se algumas das nossas brigam na escola, ou é vítima de injustiças no trabalho, ou não revida a alguma provocação, ela logo é questionada por seus pares, afinal de contas, "se apanhar na escola, e não devolver na mesma moeda, chega em casa e apanha de novo", é a política do "olho por olho, dente por dente". Estamos sempre tendo que competir ou disputar com alguém. Sempre no ataque ou na defesa.

E se somos vistas chorando então, vixi, brota gente do chão pra aconselhar: "seque essas lágrimas, seja forte" "siga o exemplo de sua mãe, a resiliência em pessoa", "tu sempre foi guerreira, vai desistir agora?" "sangue nos olhos, moça, o mundo é cruel pra nós e não podemos baixar a cabeça"

Já compreendemos que chegamos até aqui porque os nossos ancestrais incorporaram com habilidade e maestria essa força e resiliência, mas acreditar que ainda são elas, e apenas elas, as nossas principais ferramentas para existir nesse aqui e agora pode esvaziar a nossa humanidade.

Qual briga vale a pena você brigar? Até que ponto tensionar as estruturas o tempo todo constrói novos futuros para o nosso povo? pode ser que lembrar-se de beber água, respirar e inspirar com mais consciência, praticar exercícios físicos, se alimentar melhor e usar máscara, tenha mais resolutividade do que a nossa militância, (muitas vezes) fundada no auto-ódio.

Se permitir ser vulnerável, despir-se de suas armas, expor suas fragilidades, passar o domingo inteiro chorando em posição fetal, aprender a pedir ajuda, aprender a receber ajuda, não diminui a sua luta. 

Se reconhecer humana e, portanto, saber que também é feita de água, de rio, de vento, de terra, de mar, de sol, de árvore, é também resistir. Reflorestar a nossa existência é preciso, porque sempre, sempre, sempre, haverá mais de você disponível pra você. 

Sheila Santos

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Coluna Preta

Sheila Santos é Mulher cis, preta, LGBTQIA+, paulistana, amante de samba e dos morros montanhosos de Minas Gerais. É Socióloga, Historiadora, Mestra em História e Doutoranda em História, e por tudo isso, acredita que contar histórias é uma forma de adiar o fim do mundo. Atua como Professora e como agitadora cultural em Diamantina (MG), é idealizadora do Fanzine “A voz (des)viada do Vale do Jequitinhonha” e do livro oriundo de sua dissertação de Mestrado, intitulado:"Quem não eco, nem sabe que já deixou de existir - A experiência contracolonialista do Quilombo Carrapatos da Tabatinga".

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