Coluna

LGBTfobia

Quantas mortes cabe em uma vida considerada fora da norma?

Há morte quando nos dizem que é errado sentir o que sentimos (porque deus fez Adão e Eva e não Adão e Ivo). Há morte quando nossos familiares e parentes, mesmo nos amando, sentem vergonha. Há morte quando veem um casal de dois homens ou duas mulheres e enxergam apenas pecado e promiscuidade. Há morte quando a comunidade religiosa nos despreza ao saberem da nossa sexualidade. Há morte quando precisamos disfarçar o tempo todo as nossas características para não sermos comparadas (os) àquele personagem vexatório afeminado do Zorra Total, ou à caminhoneira masculinizada da novela das nove. Há morte quando veem duas mulheres se relacionando e perguntam muito respeitosamente: “quem é o homem da relação?”. Há morte quando confundem a nossa sexualidade com o nosso gênero.     

Há morte quando ao sair na rua de mãos dadas com uma mulher, corro o risco de ser literalmente apedrejada. Há morte quando optamos por não andar de mãos dadas por medo. Há morte quando escolho negar, omitir ou mentir sobre a minha sexualidade por receio de perder amigas.

Mulheres se beijando
Crédito: Pinterest. 

Há morte quando um corpo negro e lésbico é duplamente alvo de fetichismo, com duas vezes mais chances de ser objetificado, estigmatizado, violentado, estuprado e executado. Há morte quando a nossa forma de amar é considerada doença pelo Estado e os seus representantes que deveriam nos proteger. 

Ontem, dia 17 de Maio de 2021, celebra-se o Dia Internacional contra a homofobia. Esse dia faz menção ao 17 de Maio de 1990, quando a OMS retirou a homossexualidade da classificação estatística internacional de doenças e problemas relacionados à saúde. Ainda é recente a garantia de direitos às pessoas LGBTQIA+ e a humanidade precisa seguir aprendendo que operar através de caixinhas que determinam o “jeito certo” e o “jeito errado” de ser, de amar, de viver significa não deixar viver, e, portanto, conduzir uma máquina que fabrica todos os dias diversas formas de mortes (mortes emocionais, sexuais, físicas, econômicas, políticas, etc).

Sheila Santos

23 Posts

Coluna Preta

Sheila Santos é Mulher cis, preta, LGBTQIA+, paulistana, amante de samba e dos morros montanhosos de Minas Gerais. É Socióloga, Historiadora, Mestra em História e Doutoranda em História, e por tudo isso, acredita que contar histórias é uma forma de adiar o fim do mundo. Atua como Professora e como agitadora cultural em Diamantina (MG), é idealizadora do Fanzine “A voz (des)viada do Vale do Jequitinhonha” e do livro oriundo de sua dissertação de Mestrado, intitulado:"Quem não eco, nem sabe que já deixou de existir - A experiência contracolonialista do Quilombo Carrapatos da Tabatinga".

Comentários


  • 25-05-2021 12:02:53 Paula Silva

    É muito bom poder acompanhar essa coluna, parabéns! :) Textos necessários e inspiradores. Sucesso!