Coluna

O SABOR DA VITÓRIA

Xan Griffin / Unsplash - 

Juiz de Fora (MG) - A derrota e a vingança têm o mesmo gosto amargo na boca. As duas nos dão a mesma sensação de que algo ficou faltando. Que não nos satisfaz. É como uma coisa incompleta, inodora, sem cheiro e sem comemoração. A vingança, às vezes, é um remédio necessário que vai nos curar por um instante, mas o efeito é curto e logo volta a mesma dor. A derrota é semelhante e está ligada ao desânimo, de se sentir diminuído. Se ela, a derrota, foi justa, temos a lamentar. Injusta, nos leva à vingança. E, por isso mesmo, elas se juntam nos extremos.

A vitória, no entanto, é única, não tem irmãs ou irmãos. Ela representa um momento único. Mas ela também é efêmera. A vitória é o início da caminhada e quando ela chega nada é possível fazer contra a celebração. Ser vitorioso é fatigante, tanto no processo da conquista quanto na festa. Ao contrário das outras, a fadiga não cansa na vitória. Porque ela afeta o nosso processo mental da conquista.

A sua beleza está na trajetória, no culminar de uma existência. A vitória é luta, a vitória é persistência. Mesmo aquelas que têm os seus caminhos facilitados. Apesar de o cansaço estar presentes nas três proposições.

No entanto, um traço da derrota persiste na vitória. Enquanto a vingança é tola e se resume a uma catarse, a derrota e a vitória podem se conectar quando a derrota pode ser o sinal de que o guerreiro precisa se erguer para continuar. O vingativo morre em si mesmo, mas o derrotado pode ser o vitorioso de amanhã.

Então, não existe uma vitória mais saborosa do que aquela que nasceu de uma derrota. O vitorioso eterno não sente a queda, não tem ideia do que ela é. Muitas vezes, a vitória desacostuma o guerreiro da luta, e é o momento em que abre mão das suas defesas em nome da arrogância.

O gosto da vitória é um tempero preparado entre a derrota e ela. O gosto da vitória só é completo quando as duas formas estão presentes. Qual seria a melhor celebração? A vitória inconteste, fruto de uma perseverança, vinda e construída de algumas derrotas ou aquela que, simplesmente, cai no nosso colo e nos transforma em alguém sobrenatural?

Conquistas são frutos da persistência, amparadas nos dois pilares da nossa existência. A luta de um povo que vence seus inimigos é uma história pontuada nos dois aspectos.

No entanto, ao vitorioso, celebrando seus momentos, o cerne da vingança pode vir a destruir toda a aura do momento. Cabe ao vitorioso deixar a vingança de lado, e assim não sentirá um gosto amargo misturado ao doce momento da festa.

Nilson Lattari

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Crônicas e Contos

NILSON LATTARI é carioca e atualmente morando em Juiz de Fora (MG). Escritor e blogueiro no site www.nilsonlattari.com.br, vencedor duas vezes do Prêmio UFF de Literatura (2011 e 2014) e Prêmio Darcy Ribeiro (Ribeirão Preto 2014). Finalista em livro de contos no Prêmio SESC de Literatura 2013 e em romance no Prêmio Rio de Literatura 2016. Menções honrosas em crônicas, contos e poesias. Foi operador financeiro, mas lidar com números não é o mesmo que lidar com palavras. "Ambos levam ao infinito, porém, em veículos diferentes. As palavras, no entanto, são as únicas que podem se valer da imaginação para um universo inexato e sem explicação".

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