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ORIGENS

mulher negra em campo florido
Arte: Nappy Stock - 

Aysha tem 17 anos, é uma garota negra de pele clara, seus olhos são verdes, o nariz é largo, os lábios são grossos e os cabelos são lisos. Como podemos perceber, Aysha é fruto de um relacionamento interracial, e como a maioria dos brasileiros miscigenados, durante toda a sua vida foi chamada de morena. Mas, desde a infância, Aysha sempre teve dúvidas ao responder sobre a sua “cor ou raça/etnia” em formulários. Ouvia de todos que era clara demais para se autodeclarar negra e escura demais para se autodeclarar branca.

Adolescer na Pandemia da Covid-19 para Aysha foi sinônimo de crise existencial. Com tanto tempo livre, ela passou a travar longos diálogos com o espelho:

- Diacho, quem eu sou realmente? Se alguém fixa os olhos em meus cabelos, dizem que minhas origens são europeias, mas se destacam o formato do meu rosto, nariz e boca, não têm dúvidas de que eu sou descendente de africanos. E nessa era do cancelamento, se eu disser que sou meio lá e meio cá, eu tô lascada. Preciso tomar partido!

- Mas, porque diabos é tão importante se definir através da minha cor/raça/etnia? Eu não poderia simplesmente dizer quem sou através do meu prato predileto, das músicas que amo, do idioma que falo, das roupas que visto, da minha cor favorita...

- O pior é que não, eu não poderia me definir apenas através dessas características porque elas sofrem influências de vários lugares suspeitos, e, pra falar a verdade, só esse ano eu já mudei de prato predileto cinco vezes. Óh céus, estaria na ausência de passado a causa das minhas piores crises existenciais?

- Eu sinto que pra saber quem eu sou de verdade, é preciso suspender as influências da Mídia e do Mercado sobre mim, é preciso suspender até essa imagem que eu vejo no espelho e voltar a sentir de dentro pra fora o que realmente é meu.

- Eu vou chamar isso de jornada sensorial de autoconhecimento! E pra começar essa jornada eu vou submeter o meu corpo a experiências dicotômicas. Primeiro vou experimentar algo tipicamente europeu e depois algo africano, e observar como o meu corpo reage. Talvez dessa forma eu consiga mapear se pendo mais pra África ou pra Europa.

- O que acontece quando ouço atabaque e quando ouço piano? quando como feijoada e quando como macarronada? quando vou a um terreiro de candomblé e converso com um preto velho e quando leio o Evangelho Segundo o Espiritismo de Allan Kardec? quando leio Chimamanda Adichie e quando leio Madame Bovary?

- Gente, que achado, tô de cara!!! A minha comida predileta nunca foi hambúrguer com batata frita. Esse prato tem lá o seu valor, mas a comida que faz tudo pulsar dentro de mim não é essa, a comida que me faz voltar no tempo, um tempo anterior a essa encarnação, inclusive, é sopa de quiabo. E eu aprendi lendo Chimamanda que o quiabo é o alimento mais presente em todo o mundo afroatlântico.

- Nãooo, para tudo!!!! Isso é o meu auge, eu acabei de descobrir que eu sou uma Mulher Negra. 

- Pera, mas se eu contar no Insta que eu sou uma mulher negra porque gosto mais de sopa de quiabo do que de hambúrguer com batatas fritas eu vou virar o meme do ano. Ai ai ai, e agora? “Como me certificar das minhas origens” Google pesquisar.

- Teste de Ancestralidade? O que é isso? “Explore a história dos seus antepassados” “Descubra os povos do seu DNA”. Caramba, isso é sensacional, e é tudo o que eu preciso. Vou fazer esse Teste de Ancestralidade MeuDNA Origens e com esse resultado, terei a certeza que tudo o que eu sinto pulsar vivamente dentro de mim, mas que ainda não sei dizer da onde vem, é na real uma conexão ancestral.

- Tá, e agora com o Teste de Ancestralidade feito e as suas origens reveladas, você já sabe quem você é?  

- Depois de fazer o Teste eu descobri que quem eu sou é uma pergunta que eu vou respondendo ao longo da vida, mas hoje, ao descobrir que a minha composição genética corresponde a 66% da África, 21% da Europa e 13% da América eu posso voltar atrás e pegar o que ficou perdido. Saber das minhas origens significa aterramento mas também libertação da assimilação forçada pela globalização que quer todo mundo padronizado, vestindo a mesma roupa, comendo a mesma comida, e usando o mesmo penteado.

 

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Sheila Santos

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Coluna Preta

Sheila Santos é Mulher cis, preta, LGBTQIA+, paulistana, amante de samba e dos morros montanhosos de Minas Gerais. É Socióloga, Historiadora, Mestra em História e Doutoranda em História, e por tudo isso, acredita que contar histórias é uma forma de adiar o fim do mundo. Atua como Professora e como agitadora cultural em Diamantina (MG), é idealizadora do Fanzine “A voz (des)viada do Vale do Jequitinhonha” e do livro oriundo de sua dissertação de Mestrado, intitulado:"Quem não eco, nem sabe que já deixou de existir - A experiência contracolonialista do Quilombo Carrapatos da Tabatinga".

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