Coluna

"Eu, Parda ou Negra?"

CENA 1:

Domingo de sol, churrasco no sítio para comemorar os 30 anos do melhor amigo, cerveja gelada, pagode ao vivo e piscina com água morna.

- Opa, olha quem chegou, a branca mais negra do Brasil.

- Epaaa, que história é essa aí, novim? eu sou negra, pô.

- Negra nada, cê tá é roubando o sol de alguém, ou vai me dizer que tu já sofreu racismo com esse nariz fino?

CENA 2:

Quinta feira, seis da tarde, lusco-fusco no céu e na casa da Vó a hora de um ritual que se repete há pelo menos duas décadas: tomar café com leite e comer biscoito de polvilho assistindo a novela das seis.

- Vem, fia, cê vai perde a mior parte. É a hora que o moço vai se declarar pra moça. Óia fia, como ela é delicada, tão doce e pura, vê o cabelo dela, parece seda, quando o vento bate e sopra nele é tão bonito de vê... se você alisasse o seu ia ficar parecido, e a pele tão clarinha e aveludada dela, tudo nela lembra um anjo... Isso que é gente de qualidade!

As duas cenas acontecem em momentos diferentes na vida de uma mesma pessoa, uma mulher negra de pele clara. Na primeira cena, a sua autodeclaração como mulher negra é questionada, e até motivo de piada entre os amigos. Na segunda cena, fica explícito através da Avó que é negra, que o fenótipo e as características negróides da neta, como o cabelo crespo e os lábios grossos, são menos bonitos do que aqueles observados na moça branca e loira, protagonista da novela das seis.

Se de um lado ela não é negra o suficiente para reivindicar essa identidade, do outro lado, ela nunca vai ser suficientemente branca como mandam os padrões, mesmo sendo pouco pigmentada e tendo o nariz fino.

mulheres negras
Arte: revistaglamour. 

A Avó passou a vida toda odiando a imagem que via no espelho, - usava peruca para esconder o cabelo crespo e pó de arroz para disfarçar a pele escura –. A neta, quando toma consciência da violência implícita nisso, a violência que é a negação de si (de suas raízes e de sua história) através do embraquecimento, entende que autodeclarar-se negra, e não parda, é uma escolha política. E é através dessa consciência que se empodera para responder a provocação dos amigos:

- Ô seus tranquêra, eu vim aqui hoje pra me divertir, mas já que cês tão pedino, então abaixa esse som aí que agora eu vou dar uma aula de Colorismo. Ô novinho, eu tô ligada, mano, tô ligada que eu, como uma mulher negra de pele clara, não posso dizer que sei o que é ser perseguida pelo segurança no shopping, ou ser parada por um policial de forma truculenta. Eu nunca fui a “macaca da escola”, e é por isso que assumo que tenho privilégios em relação às mulheres retintas, mas esses privilégios são diferentes do privilégio branco. Pega visão aqui, eu, como mulher negra de pele clara, também não tenho um minuto de paz por causa do meu fenótipo e das minhas características. Apesar de nunca ter sido a “macaca”, eu sempre sou a “exótica”, a “sujinha, porém desejável”.

Se fosse há 400 anos, irmão, eu não seria a sinhá, mas aquela negrinha da Casa Grande que é mais tolerada por causa dos seus traços finos ou do seu cabelo liso, mas continua sendo uma escrava. Isso quer dizer que eu sofreria menos racismo que a escrava retinta que trabalha na roça? Sim, sofreria menos racismo, mas sofrer menos racismo é diferente de não sofrer nenhum racismo. Tanto eu, quanto a mulher retinta seríamos descriminadas, teríamos a nossa humanidade questionada, é por isso que a nossa luta é a mesma.

Pô, cês botam fé que a negritude só é maioria no Brasil beirando os 56% por causa dos que se dizem pardos, ou seja, as pessoas negras de pele clara? isso não pode ser apagado, caramba, o colorismo não pode ser usado pra dividir a gente, precisa ser usado pra considerar ao invés de apagar as vivências das pessoas negras em suas várias tonalidades. É preciso usar o colorismo pra lutar melhor, e não pra lutar menos!

Sheila Santos

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Coluna Preta

Sheila Santos é Mulher cis, preta, LGBTQIA+, paulistana, amante de samba e dos morros montanhosos de Minas Gerais. É Socióloga, Historiadora, Mestra em História e Doutoranda em História, e por tudo isso, acredita que contar histórias é uma forma de adiar o fim do mundo. Atua como Professora e como agitadora cultural em Diamantina (MG), é idealizadora do Fanzine “A voz (des)viada do Vale do Jequitinhonha” e do livro oriundo de sua dissertação de Mestrado, intitulado:"Quem não eco, nem sabe que já deixou de existir - A experiência contracolonialista do Quilombo Carrapatos da Tabatinga".

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